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Roberto DaMatta

10 Fevereiro 2016 | 02h00

Eu hei de ter um netinho, ah...

Pra me levar pela mão.

No carnaval, eu não fico em casa

Eu não fico, eu vou brincar!

Nem que eu vá me sentar na

calçada, Pra ver meu bloco passar...

Lupicínio Rodrigues – autor de elaboradas e densas canções de amor – surpreende escrevendo, em 1936, ano em que nasci, essa singela e comovente marchinha carnavalesca. Uma raridade que constrói e, ao mesmo tempo, define um carnaval. O carnaval como um ritual – como um encontro necessário, como as festas religiosas e algumas cerimônias cívicas – e não como uma brincadeira da qual se escolhe livre e individualmente, participar. O carnaval faz parte do calendário religioso católico romano que, mesmo no Brasil republicano, burguês e pós-moderno, continua a ser observado. Hoje, ao lado da Semana Santa e da Semana da Pátria, ele talvez seja mais um feriado festivo do que uma ocasião que coage o nosso comportamento, obrigando à participação como deixa claro a marchinha de Lupicínio.

Ouvi a música pelo piano de mamãe, quando era um menino: era o netinho que levava o avô pela mão até o seu bloco de carnaval. Hoje, sendo um avô feliz e orgulhoso de cinco lindas moças e três belos rapazes, tenho nada mais nada menos do que oito mãos dispostas a amorosamente me conduzirem ao meu bloco que, passa todo ano pela minha calçada.

Leitor querido: se você tiver alguma recordação desse música, ouça-a. Se você não souber manipular algum aparelho eletrônico, seu netinho lhe ajuda. E ouvindo a simplicidade dessa tocante canção, você vai ler essa crônica como eu a escrevo: com os olhos molhados dos antigos carnavais.

*

Era um menino quando meu coração gravou essa música. Hoje, nesse carnaval que acabou de passar pela minha calçada, eu, velhinho, apenas vi o bloco passar. Algo me diz que cada um de nós pertence a muitos blocos. Uns nos são impostos outros, como os de carnaval, são escolhidos. Dir-se-ia que os impostos são opressivos e obrigatórios – como a casa, os irmãos, a escola e até mesmo o país, a etnia e o gênero; ao passo que os escolhidos, como o bloco de carnaval figurado nesta música, são marcados por liberdade. Há uma verdade nisso, mas há também a ilusão que o carnaval brasileiro representa muito bem. É que o escolhido e o obrigatório também se confundem, pois muito do que é “escolhido” é determinado por um “obrigatório” vivido com mais ou menos intensidade. Há quem transforme escolha em obrigação e quem faça o justo oposto, diz o meu lado cinzento como essa quarta-feira, outrora santificada – hoje parte de um longo e fantasioso feriado.

*

O tempo do carnaval era obrigatório. A despeito de todas as mudanças, ele continua sendo a pausa que dá sentido e razão ao tempo como uma majestade humana. Este imperador sem rivais que dizem que passa quando, de fato, quem passa somos nós.

Uma lenda escandinava, traduzida à luz da análise pelo sábio das línguas e costumes indo-europeus Georges Dumézil, conta a história de um camponês que, sem querer, libertou o Diabo de uma caixote que ele transportava para um padre na sua carroça. Livre e solto o Diabo – que está sempre fazendo alguma coisa – começou a surrar o seu involuntário libertador perguntando ansiosamente: o que devo fazer? O camponês mandou que ele construísse uma ponte de pedra e em instantes ela ficou pronta. E logo o Diabo perguntou novamente: o que devo fazer? O camponês mandou que o Diabo juntasse todos os excrementos de cavalo do reino da Dinamarca o e num instante a tarefa estava cumprida. Aterrorizado porque ia apanhar novamente, o camponês teve a feliz ideia de mandar que o Diabo recuperasse o tempo. Sabendo que o tempo era precioso, o Diabo saiu em sua busca, mas não conseguia alcançá-lo. Trouxe dele pedaços, mas não o tempo inteiro como ordenara o camponês. Não tendo observado a tarefa, o Diabo voltou para a caixa.

O tempo como potência impossível de ser apanhada foi brilhantemente descrito por Frei Antonio das Chagas num poema escrito nos mil seiscentos e tanto:

Deus pede estrita conta de meu

tempo.

E eu vou do meu tempo,

dar-lhe conta.

Mas como dar, sem tempo,

tanta conta

Eu, que gastei, sem conta,

tanto tempo?

 

Para dar minha conta feita a tempo,

O tempo me foi dado e não fiz

conta,

Não quis, sobrando tempo,

fazer conta,

Hoje, quero acertar conta,

e não há tempo.

 

Oh, vós, que tendes tempo

sem ter conta,

Não gasteis vosso tempo

em passatempo.

Cuidai, enquanto é tempo,

em vossa conta!

 

Pois, aqueles que, sem conta,

gastam tempo,

Quando o tempo chegar de

prestar conta

Chorarão, como eu, o não ter

tempo...

*

Afinal somos nós que brincamos o carnaval ou é o carnaval que brinca conosco o tempo todo?

 

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