Quando devo mentir?

O não desmascaramento da mentira evidente desmoraliza a verdade

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2017 | 02h00

-Sempre. Mesmo na dúvida.

- Mas as dúvidas existem. Devo, mesmo assim, mentir?

- O silêncio é possível. É um direito - como nos Estados Unidos que tanto nos atrapalha com sua liberdade com igualdade, enquanto nós temos liberdade com privilégio. Mas não se esqueça do velho adágio: “Quem cala, consente”. Portanto, cuidado com o silêncio.

- O calar tem um significado cultural negativo. Pode ser visto como medo, culpa, vergonha ou arrependimento. 

- Os poderosos sempre mentem. É deles o privilégio de não dizer a verdade que seria obrigatória, porém, aos comuns. A gente como você eu...

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- Os administradores públicos eleitos ou nomeados nem sempre por mérito ou capacidade profissional sempre mentiram e sabem que a mentira é o código corrente quando se trata de governar aquilo que, sendo de todos, não é de ninguém. 

- Ou melhor - permita-me o adendo - seria até a Lava Jato. É justamente essa operação e os seus desdobramentos que têm colocado em causa os privilégios embutidos nos cargos públicos. São tantos que nem sendo criminoso você vai preso. Há um exagero de privilégios.

*

- Então o “povo brasileiro”, o dono de tudo é quem paga pelas mentiras.

- Claro. Só agora se tem cogitado de incluir o povo como sujeito. Aliás, lembro que mentir em autodefesa é legal. Se você faz um malfeito, você fala ou silencia?

- Depende...

- Não, meu caro, você nada diz. E assim fazendo você deixa pra “polícia”. Como bem argumentou o ex-presidente Lula, com excelência técnica e conhecimento, ninguém confessa o crime até a sua descoberta. E, mesmo assim, o malfeito deve ser enquadrado pela mentira que, reitero, é um direito do nosso Código Penal que - pasme! - busca a verdade!

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- Acho que as confissões católicas treinam a mentir. Você já se confessou?

- Muitas vezes...

- Mentiu para o padre?

- Acho que omiti mais do que menti...

- Omissão é camuflagem. Os pecados “mais cabeludos” - como se dizia - eram escamoteados e assim o ambíguo foi instituído como um valor. O romance de Machado de Assis Dom Casmurro é só na aparência um livro sobre um marido machista, desconfiado, inseguro, injusto e ciumento. Dom Casmurro é, de fato, uma meditação sobre a ambiguidade que permeia um mundo onde escravos eram amigos leais e amigos podiam trair para salvar a própria pele. Delatavam, contrariando as regras mais sacrossantas da amizade. Quando testemunhamos as colaborações premiadas estamos testemunhando o rompimento com um axioma básico do compadrio no Brasil. 

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- Antigamente, tínhamos um sistema no qual o fingimento era premiado e só os subordinados eram presos. Houve uma transformação expressiva. Hoje, qualquer um pode ser preso. Um tabu hierárquico foi rompido. A demanda hoje em dia é o fim das leis especiais que eram aplicadas de acordo com a posição social e os cargos. Essa é revolução que vocês - mais ou menos conscientemente - estão fazendo. 

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- Estamos liquidando o enorme espaço entre a verdade e a mentira. Algo como o purgatório?

- Com certeza. Veja bem: o purgatório nada mais é do que a criação de um lugar entre o certo e o errado. O medievalista francês Jacques Le Goff acentua como o purgatório é a institucionalização de um movimento no qual a Igreja controla almas trocando a remissão de pecados por orações e indulgências. 

- Sociologicamente, o purgatório é a concretização teológica da reciprocidade que obriga a devolver presentes e favores. As almas do purgatório demonstram - como você mesmo já afirmou no seu livro A Casa & a Rua - que, no Brasil, há um contrato entre os vivos e os mortos. Uns atuam sobre os outros de modo que a morte mata, mas os mortos não morrem. 

Pela mesma lógica, a ausência de prisão para os criminosos torna os honestos seus perpétuos reféns. O não desmascaramento da mentira evidente desmoraliza a verdade. Sem saber, vocês estão fazendo a revolução de separar emaranhados, essa parte obscura do vosso mundo político-social, todo ele fundado na confusão entre o informal e o formal, legitimado pelo compadrio purgatoriano que liga os fortes com os fracos, os amigos com os inimigos e, na confusão facilitada pelos impedimentos legais, salvam-se todos.

- Daí, esses abusos formais do “tudo foi feito na forma da lei” e do “eu não sabia de nada” e “não conhecia ninguém” que não combinam com os controles autocráticos do PT e da personalidade de um chefe que, na audiência com o juiz Moro, mal disfarçava a sua indignação de ser inquirido na forma da lei. Porque a lei não era para ele... 

Se separar a verdade da mentira é um dever, não mentir é uma revolução.

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