Quadrinhos encontram apoio na internet

Quadrinhos encontram apoio na internet

Autores veem crowdfunding como forma de viabilizar suas histórias

Matheus Mans, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2017 | 05h00

De acordo com a Bíblia, Deus criou os céu e os homens, conquistando milhares de seguidores na Terra. Agora, bilhões de anos depois, o carioca Carlos Ruas “criou Deus” e o efeito está sendo parecido com o que foi registrado no livro do Gênesis: com tirinhas sobre a divindade, o quadrinista conquistou mais de 3 milhões de seguidores em sua página no Facebook e acaba de bater recorde no crowdfunding no Brasil, ao arrecadar quase R$ 80 mil em apenas 24 horas. Com isso, ele consolida ainda mais seu nome no mercado nacional e mostra o potencial das HQs na internet.

Os quadrinhos de Ruas, chamados de Um Sábado Qualquer, surgiram há cerca de sete anos com o objetivo de contar histórias que não estão no livro sagrado, como a infância de Cristo ou a relação de Deus com outras divindades. “Eu ‘brinco’ com Deus”, conta o quadrinista em entrevista ao Estado. “Na Bíblia, falam que Deus criou o homem em um dia, por exemplo. Mas espera aí: será que Deus usou um livro de receitas para isso? Será que ele testou o sistema digestivo? É isso que quero nas minhas histórias: passagens que não estão na Bíblia.”

Com esta visão bem-humorada da Bíblia, surgiram reclamações e pessoas que não gostaram das piadas. Afinal, religião e humor não caminham de maneira amigável na maior parte das vezes. Mas Ruas não se amedrontou, continuou o seu projeto e agora, sete anos depois das primeiras provocações com Deus, atinge uma marca impressionante: em apenas um único dia de arrecadação em um projeto de financiamento coletivo no site Catarse, Ruas arrecadou R$ 80 mil – o mais rápido em 2017 e um dos mais velozes da história.

“Fiquei surpreso com a reação do público. É o quarto livro de minha carreira, mas apenas o primeiro que faço em uma plataforma de crowdfunding”, revela Ruas sobre seu projeto, que conta a história da infância de Cristo e já arrecadou R$ 130 mil. “Não era fácil ser quadrinista antigamente. Hoje, ainda não é. Mas as coisas mudaram: podemos divulgar nas redes sociais e, se o quadrinista não tiver editora, pode ir para o financiamento coletivo e ativar a comunidade que é fã de seu trabalho. Nem é preciso tirar dinheiro do próprio bolso”, explica.

Cena. Além de Ruas, vários outros quadrinistas brasileiros já perceberam que o financiamento coletivo é um dos melhores caminhos para publicação de suas obras, livros e tirinhas. O paulista Felipe Cagno, por exemplo, já fez quase 15 campanhas de financiamento coletivo, dentre todas as plataformas disponíveis no País e algumas no exterior. O crowdfunding, então, se tornou o seu meio de publicação. “Eu tenho portas abertas em algumas das editoras do País”, afirma Cagno, ao Estado. “Mas prefiro continuar no financiamento coletivo. Ali, eu tenho contato direto com os meus leitores.”

Segundo Cagno, com esse contato, ele consegue adaptar seus projetos de acordo com o gosto dos seus fãs, criando uma comunidade ainda mais engajada e fiel – em um de seus projetos, mais de 90% dos apoiadores já tinham participado de projetos passados. “A cena dos quadrinhos independentes nunca esteve tão forte no Brasil”, afirma o quadrinista. “Muito disso se deve ao financiamento coletivo”, afirma ainda. 

Para o Catarse, que também organiza financiamento de jogos, filmes e livros, os quadrinhos já se tornaram uma das principais plataformas de arrecadação. Nos seis anos de existência do Catarse, são mais de R$ 5,1 milhões arrecadados com mais de 43 mil apoiadores únicos em 300 projetos financiados.

“Com o crowdfunding, as pessoas se sentem próximas de autores e histórias”, afirma líder de projetos do Catarse, Geraldo Aleandro ao Estado. “A comunidade dos quadrinhos independentes se reinventou por meio do financiamento coletivo.”

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