Pyongyang, o retrato em quadrinhos de uma ditadura

Obra do canadense Guy Delisle mostra uma delirante ditadura comunista, estruturalmente em frangalhos

Adriano Marangoni, especial para o estadao.com.br,

18 Outubro 2007 | 19h04

Não há internet. Jornalistas são malvistos. A televisão só tem dois canais, ambos estatais. Combustível e energia elétrica são racionados. Andar desacompanhado, para um estrangeiro, é quase impossível. Enquanto informação é artigo de luxo, propaganda e doutrinação abundam em todos os cantos. Cenário dos mais estéreis, não é ficção, mas o cotidiano da vida na Coréia do Norte.   Pyongyang - Uma viagem à Coréia do Norte (Zarabatana, R$ 35, 178 páginas), obra em quadrinhos do canadense Guy Delisle, mostra aquilo que poucos já tiveram chance de observar tão de perto: uma delirante ditadura comunista, estruturalmente em frangalhos, e, mesmo assim, dominada pela fé cega na sua superioridade e de seu líder, Kim Jong-il.   Na tradição do jornalismo em quadrinhos, tal como Palestina, de Joe Sacco, ou O Fotógrafo, de Didier Lefèvre, Pyongyang é uma rica narrativa das experiências de Guy Delisle enquanto trabalhava num estúdio de animação na capital do país. Espalhados em episódios bem humorados, a graphic novel registra os momentos mais triviais do cotidiano, exatamente aqueles mais potencialmente perigosos em se tratando de ditaduras.   Surreal   As condições da estadia de Delisle são surreais. Hospedado praticamente sozinho num imenso hotel (havendo ainda mais dois para estrangeiros na cidade), teve que se habituar à idéia de se ver constantemente acompanhado de um guia e um tradutor a cada manhã.   Num verdadeiro Estado policialesco, irônico é o fato de que o único livro que o autor tenha levado na bagagem fosse o clássico 1984, de George Orwell. Com fotos do ditador Kim Jon-Il e seu pai, Kim Il-Song espalhadas por todos os cantos, os prédios e ruas de Pyongyang são um relicário do próprio Estado que ninguém ousa questionar, algo percebido pelo autor com cada vez menos surpresa.   Com honesta convicção, os norte-coreanos reproduzem os discursos oficiais com esmero. Guy ouve de seu tradutor, por exemplo, que são os americanos que impedem a unificação das duas Coréias, como se a Coréia do Sul estivesse disposta a abrir mão de seu conforto econômico auxiliando a vizinha, 46 vezes mais pobre.   Em Pyongyang, as falhas do onipresente poder norte-coreano só podem ser percebidas através de pequenos detalhes. Uma garrafa de água de validade quase vencida, com o rótulo recortado, provavelmente vindo da Coréia do Sul ou de alguma ONG; hortas e plantações instaladas na cobertura dos prédios, sinal da escassez de alimentos; caminhadas a pé estimuladas na rede pública pelo grande líder, como se houvesse opção para a maior parte da população.

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