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Puro afeto

Uma vez bati no quarto de Linda Nemer na Cidade Universitária, em Paris, e quando a amiga abriu a porta, dei com a mesinha posta no maior capricho, não lhe faltando uma jarra com flores. Ah, desculpe, eu não sabia que você ia receber gente... Não, não estou esperando ninguém, disse Linda. Mas e essa mesa posta? É pra mim mesma, sorriu, acha que eu não mereço? Vexado, pensei no cafezinho já meio antigo que eu costumava engolir de pé – e, com a despretensiosa lição de autoestima, me dei conta da distância que vai do requentado ao requintado.

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Humberto Werneck

26 Janeiro 2016 | 02h00

A historinha me voltou uma vez mais na semana passada, quando José Alberto Nemer avisou que sua irmã acabara de morrer em Belo Horizonte. No momento em que escrevo, não sei se a imprensa mineira interessou-se pela má notícia. Se o fez, é possível que a ênfase tenha sido posta um pouco ao lado, em Elizabeth Bishop, de quem Linda Nemer, ao lado de José Alberto, foi anjo da guarda nos anos em que a grande poeta americana viveu em Ouro Preto, de 1969 a 1974. Não consigo imaginar o que teria sido da escritora sem aquele carinho 24 horas, sobretudo nas crises abissais em que o alcoolismo a fazia mergulhar.

Linda Nemer era assim com seus amigos, puro afeto em disponibilidade. Delícia de pessoa, densa e leve, descobri tão logo a conheci, quatro décadas atrás, em Paris, onde Linda, professora e servidora pública, formada em economia e sociologia política, fazia pós-graduação. Num tempo em que uma canção recomendava não confiar em ninguém com mais de 30 anos, não havia o menor degrau entre os meus 28 e os seus 42 – a exata metade do tempo que lhe seria dado viver. Dona de uma vitalidade meio moleca, que conservou maturidade adentro, ela adorava uma brincadeira. Para ouvir ou contar, uma boa história era com Linda.

Foi assim numa inesquecível noitada paulistana, em 2011, a propósito do relançamento da peça Um Porto para Elizabeth Bishop, de Marta Góes. Cintilaram ali os irmãos Nemer, com seus estilos diversos e complementares. José Alberto, que além de artista plástico é um talento não profissionalizado da performance bem-humorada, stand up mesmo quando sentado, seduziu a todos com enredos em que até as pausas eram magistralmente administradas. A seu lado, sem um pingo de semostração, Linda aqui e ali pontuava a fala de José Alberto com observações tão econômicas quanto divertidas.

Lembro-me também de outra noitada, em março de 1990, na Casa Mariana, joia construída em Ouro Preto entre o final do século 17 e início do 18, que pertenceu a Elizabeth Bishop e que Linda Nemer comprou de sua herdeira em 1982. O mote era o lançamento da primeira coletânea brasileira da escritora, e incluiu leitura de poemas em inglês, por Lloyd Schwartz, e em português, por Affonso Romano de Sant’Anna. Mas o que de mais forte ficou em mim daquela noite não foi a arte literária, e sim as artes de Linda, expressas na mais bem acabada hospitalidade mineira, não ostensiva, sem qualquer afetação. Tudo fino e simples como a anfitriã. Tive o privilégio de pousar outras vezes na Casa Mariana, e sei que nunca recebi sob outro teto a profusão de pequenas atenções que Linda sabia tornar inigualáveis.

Bem sabe disso a professora curitibana Maria Regina Przybycien, que a ela recorreu enquanto pesquisava para sua tese de doutoramento sobre Elizabeth Bishop. Teve, de Linda, mais que acesso pleno e generoso a informações sobre a poeta. No dia da defesa, deixou a sala para que os examinadores deliberassem – e, chamada de volta, lhe pediram que ocupasse, em frente à banca, uma cadeira de assento de palhinha que antes não estava ali. Emocionada, Maria Regina reconheceu a relíquia do escritório de Elizabeth Bishop, que Linda Nemer, sem lhe dizer palavra, fizera vir da Casa Mariana, para que nela recebesse a notícia de sua aprovação com louvor, e que a partir de então lhe pertencia.

Houve também, em Petrópolis, um jantar de amigos e estudiosos da escritora americana, no qual a certa altura Linda Nemer fez soar o cristal do copo com o talher, pedindo a palavra. Contou de um par de abotoaduras de ouro e rubi que Elizabeth Bishop dera de presente à poeta Marianne Moore, e que, após a morte da amiga e mestra, voltou a suas mãos – para acabar, também como presente, nas de Linda Nemer. E eis que naquela noite a joia ganharia nova dona. “É coisa de escritoras”, explicou – e passou as abotoaduras a Marina Colasanti.

Coisa de escritoras? Coisa de Linda Nemer, que mal se foi e tanta falta já me faz.

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