Provas e testemunhos

Quando eu frequentei reuniões dos Alcoólicos Anônimos e testemunhei um ente querido afirmar sua relação de englobamento com o álcool, definindo-se na formula clássica do "Meu nome é X e eu sou um alcoólatra!", entendi o famoso "primeiro passo".

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2012 | 03h11

O nome é mais do que significativo. Trata-se de uma passagem decisiva na qual a perturbação é reconhecida e aceita. Ora, aceitar o poder do álcool (ou de qualquer outra obsessão) é um passo decisivo, porque é a aceitação de alguma coisa que antes passava por outra e não podia ser percebida ou era simplesmente negada. Negada com a mesma veemência dos calhordas que hoje infestam a cena política nacional. Quando se traz ao mundo da consciência ou da superfície algo oculto, conhecemos o seu lugar e assim podemos situá-lo. A classificação - o lugar das coisas - é o primeiro passo para tentar levar a coisa ao seu lugar, isto é, a um conjunto.

Quando o dependente diz que ele não tem poder sobre algo, ele ganha o estranho poder de situar esse algo no conjunto de sua vida. Porque toda vida é múltipla, exceto a dos que compulsivamente negam a multiplicidade como um valor e como um fato. O perturbador é justamente a perda parcial ou total da multiplicidade e da capacidade de aceitar a contradição e o paradoxo - esses esteios da mentira e da falsidade. Quando nos tornamos unilaterais, quando estamos permanentemente focados, viramos sentinelas com direito a matar. É quando o foco se transforma num valor, ou seja: num dado que organiza o conjunto. Quando isso ocorre, entramos no plano do fanatismo, porque perdemos a mobilidade de sairmos de nós mesmos - essa condição essencial, mas não exclusiva de alcançar algum tipo de oásis existencial.

Eu me pergunto se não seria saudável dizer: "Meu nome é Y e eu sou um radical! Para mim, o mundo não faz sentido fora dos limites de minha crença, que é a única verdadeira!" Vejam o problema. Aqui, a obsessão política (moral ou religiosa) não é tomada como um incômodo, mas como o remédio, virtude ou solução. Se somente eu estou certo, o mundo é meu por direito, moral e fé. A cruzada bate à minha porta.

Não matei um homem, dizem os fanáticos numa guerra religiosa, mas um judeu, um árabe ou um protestante (ou um brasileiro ou um católico). Daí para matar um alemão, um americano ou um corintiano é um passo. Contextos em que reina um incondicional crer ou não crer impedem esses reconhecimentos dos outros como seres múltiplos e problemáticos, vivendo simultaneamente muitos papéis. O sal da vida, como diz meu amigo Dick Moneygrand, é ver o amigo como um apaixonado por uma pessoa que achamos horrível. O tal "como é que pode?" é o cerne do humano. O estranhamento está na raiz da consciência que, por si só, é um estranhar.

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Um amigo de Marcelino, um dos tios maternos que muito marcaram minha vida, contava uma história ocorrida numa antiga Manaus. Era a saga de um jovem amazonense que, por sua conta e risco, e sem nenhuma ajuda das elites locais, seguiu clandestino para a Europa e lá aperfeiçoou o que mais gostava de fazer: desenhar e pintar. Era tão bom que logo virou um grande artista. Expôs em muitos países e finalmente foi elogiado em Paris, onde recebeu um prêmio. Redescoberto, voltou a Manaus, onde foi ambiguamente recebido. Parte da elite não duvidava do seu talento; um outro lado, porém, dizia que sua pintura era demasiadamente boa para ser de um mestiço e de um brasileiro. A inveja (esse pendor nacional) ganhou os jornais e tal como ocorreu em 1917 no Rio de Janeiro com o pintor alagoano Virgílio Maurício, os radicais do ressentimento levantaram uma extremada infâmia: os quadros seriam falsos! Eram fabricações encomendadas debaixo de pagamento a pintores franceses. O escândalo só poderia ser posto a limpo numa prova de talento e um repto foi lançado. O amazonense foi desafiado a executar uma obra em público.

Virgílio Maurício, cujas obras estão na Pinacoteca de São Paulo, recusou, mas o mestiço topou. E, como contava orgulhosamente meu tio, provou o seu talento pintando um quadro chamado Pusilanimidade. Mostrava um chefe de governo vendendo um segredo militar (talvez um mapa) ao comandante inimigo que lhe prometia poder perpétuo e muita grana - essas coisas da nossa sífilis política. No Brasil, concluía meu tio numa lição inesquecível, o talento tem de ser provado. Já a ignomínia é moeda corrente. Qualquer semelhança com o real, amigos leitores, é mera coincidência.

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