Processo de imbecilização

Eu, com meus quase 30 anos, refleti e tomei a sábia decisão: vou falar com meu pai de novo

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2017 | 02h00

Nesses últimos dias, reparei num fenômeno muito peculiar que, creio eu, acontece em praticamente todas as famílias desse mundo, mas nem sempre é identificado. Trata-se de um curioso processo de imbecilização que acontece com os filhos adultos quando eles vão à casa dos seus pais.

Explico-me. Estava eu na casa dos meus pais, quando encontrei uma velha pulseira minha numa gaveta do banheiro. Era uma maravilhosa pulseira de pérolas de plástico enfiadas num elástico transparente. Não tive dúvidas e estiquei aquela bijuteria de luxo para colocá-la no braço.

Aconteceu o óbvio: o elástico estava ressecado e a pulseira arrebentou, fazendo com que dezenas de pequenas pérolas vagabundas voassem pelo banheiro e se espalhassem pelo chão de mármore.

Se o fato tivesse ocorrido na minha própria casa, eu não tenho uma sombra de dúvida sobre como eu reagiria: ajoelharia no chão, cataria cada uma das bolinhas e jogaria tudo no lixo. Mas não. Eu estava na casa dos meus pais, então uma irresistível onda de imbecilidade tomou conta do meu corpo e da minha mente, me fazendo permanecer de pé, olhando para as bolinhas no chão durante uns 30 segundos e concluir que o ideal a fazer era... deixar tudo ali e perguntar para minha mãe como eu devia proceder.

Minha mãe ficou desconcertada e me perguntou qual era minha dúvida. Dei uma gaguejada e falei: “Não sei... Jogo tudo fora mesmo? Será que não dá para fazer um colar com aquilo?”. Aquilo era um seleto grupo de falsas pérolas deformadas e amareladas compradas na 25 de Março em 1999. Minha mãe seguia me olhando como se eu fosse um ÓVNI.

No dia seguinte, outro fato ocorreu naquele banheiro misterioso. Uma das duas lâmpadas começou a piscar. Eu fiquei estática mais uma vez, olhando para aquele complexo fenômeno da física. Saí do banheiro, fui até meu pai e disse: “a lâmpada do meu banheiro está piscando”. Ele me olhou, esperando que eu continuasse. “E daí?”, disse ele, dado meu silêncio. E eu respondi “e daí não sei”. 

Voltei para o banheiro. Começou, então, a sair uma leve fumaça da lâmpada. Eu, com meus quase 30 anos, refleti e tomei a sábia decisão: vou falar com meu pai de novo. Abri a porta, dirigi-me à sala. “Tá saindo fumaça.” Ele me observava em silêncio. Mais alguns segundos. Ele disse “então apaga”. Eu “ah, tá”. Voltei para o banheiro e apaguei. No dia seguinte já não aconteceu mais.

Eu não entendo bem, mas parece que os filhos são tomados por alguma espécie de limitação mental quando estão perto dos pais. E o mais grave: nossos pais acabam ficando com a sensação de que nós somos sempre assim. E deve ser por isso que eles se preocupam tanto.

Perto dos pais a gente sempre baixa as armas, relaxa a cabeça e se deixa invadir por um misto de infantilidade com folga. Lembro-me da tirinha da Mafalda na qual seu irmãozinho batia a cabeça num armário e, nos quadrinhos seguintes, ficava sentado, esperando alguma coisa. No quarto quadrinho a mãe chega em casa e só então ele desata a chorar.

É mais ou menos isso, com a diferença de que nós não temos 4 anos, nem somos obra de ficção. Não é proposital, mas eu de fato sinto que, perto dos meus pais, as atividades cotidianas que eu desempenho com toda destreza transformam-se em desafios intransponíveis que, no fundo, talvez só sejam um extemporâneo pedido de colo.

Vocês não precisam se preocupar tanto. Na nossa casa tudo acaba dando certo, por mais que não pareça. Objetos quebrados vão para o lixo, lâmpadas queimadas são trocadas, alguma comida brota nas panelas e a louça, num dado momento, até chega a ser lavada.

Pode parecer que não, mas a gente dá conta. Mas quando estamos com vocês, de fato é uma delícia voltarmos a ter algum direito de não ser nada além de belíssimos incompetentes à espera de ordens superiores.

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