Primeiro discaço do ano tem um som meio vintage

Crítica: Jotabê Medeiros

O Estado de S.Paulo

27 Março 2013 | 02h13

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Uma sonoridade meio vintage, um primitivismo elétrico, permeia Mala, o novo CD de Devendra Banhart. Ele conta que usou um gravador antigo, um aparelho Tascam, utilizado nos primeiros discos de hip-hop, para conseguir algumas texturas que são encontradas no disco.

Um lirismo fundo, epitelial, com ecos de Burt Bacharach aqui e ali, cerca faixas dolorosamente belas, como Daniel, e espalha-se pela obra. Na instrumental The Ballad of Keenan Milton, deitada em um ruído de gravador analógico, o ouvinte fica esperando que, a qualquer momento, surja sob os violões a voz quente de uma Karen Carpenter.

A batida da bateria em Cristobal Risquez sugere uma taquara rachada, como nos antigos discos dos Stones. "Essa noite eu te amo/Amanhã a gente vê como fica", ele canta.

Dedos estalados e uma marcação de baixo acústico, uma percussão de xamã indígena, som de vento de seriado Scooby Doo. Esses são os elementos que embalam a mântrica Taurobolium (que significa sacrifício de um boi na Roma antiga). Um neoexorcismo de bolso para espalhar pela casa em um dia nublado - não há dúvida de que a canção funciona.

Mais psicodélica, A Gain também se ergue sobre uma sonoplastia displicente. Lembra muito também as viagens interplanetárias de Syd Barrett lá nos anos 1960. Your Fine Petting Duck é um roquinho supostamente ingênuo, com corinhos de iê-iê-iê, guitarra dedilhada ao estilo havaiano, entonação de Roy Orbison, mas é falsamente inofensiva. Por aí também vai I Won't Come Over, rock que se embriaga com uma levada mezzo Chris Isaak, mezzo Angelo Badalamenti.

Mala, a faixa-título, é curtíssima, um lamento escoltado por um dedilhado de guitarra ao estilo jazzístico, como se fosse um improvável haicai de Wes Montgomery. Fur Hildegard von Bingen (o nome é uma referência a uma santa católica do século 12) também traz a voz da namorada de Devendra, Ana, numa espécie de minimalismo pré-dance. Sob uma percussão displicente, Mi Negrita é a rendição hispânica. Ele fez a première dessa canção no programa de TV venezuelano Súper Sábado Sensacional, que assistia quando era criança. Devendra não é apenas um escafandrista de emoções perdidas nas profundezas; ele sabe onde estão os tesouros.

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