Primeiro amor sem nostalgia

Wes Anderson fala do novo filme, Moonrise Kingdom, e da sua fama de autor excêntrico

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2012 | 03h10

Excêntrico, estranho, senão exatamente bizarro, é uma definição que se pode aplicar, com toda propriedade, a Wes Anderson. É maio, na Croisette, o festival de Cannes mal começou e Anderson já estará dando entrevistas sobre Moonrise Kingdom. O filme ainda vai abrir à noite o maior evento de cinema do mundo. Anderson e seu elenco, presentes na Croisette, precisam se preparar para a gala do filme. À tarde, após a sessão para a imprensa, ele chega de paletó branco e camisa floreada. Parece figurino do filme. Os cinéfilos vão entender - o cinema de Anderson possui um tom particular, basta pensar em Os Excêntricos Tenenbaums, Expresso para Darjeeling e sua animação sobre o sr. Raposo. O novo filme não é menos estranho. Mostra um casal de pré-adolescentes, um menino e uma garota de 12 anos, que desafiam convenções sociais e familiares ao fugir para viver seu grande amor. O filme estreia hoje depois de passar no Festival do Rio, onde já virou cult e agradou ao público que acha o diretor o máximo.

Você é sempre atraído por histórias de família. Como surgiu a deste filme?

Todo mundo só quer saber em que medida Moonrise é autobiográfico. Todo filme pode ser autobiográfico, na medida em que um diretor, mesmo falando sobre personagens com os quais, aparentemente, não tem nada a ver, sempre coloca sua visão. Fui o filho do meio e sempre tive a impressão de que meus pais gostavam mais de meus irmãos. Isso me deu a sensação de estar deslocado em minha família. Este filme, em especial, nasceu de um sentimento, de uma sensação. Como é amar aos 12 anos? Se você prestar atenção no filme, verá que as crianças e seus pais estão no mesmo embalo difícil de lidar com sentimentos. Os pais são adúlteros, mas o que isso significa? Que os muito jovens têm mais capacidade de lidar com a mudança.

O filme passa-se nos anos 1960, a chamada década que mudou tudo. Foi por isso que situou a história naquela época?

Provavelmente, sim, mas queria que a história se passasse num ambiente preciso e que a natureza entrasse no drama por meio de uma hecatombe. Pesquisei várias possibilidades e cheguei a esta tempestade, em 1965. Mas você tem razão - os anos 1960 mudaram os comportamentos, o cinema. Quem viveu sua juventude nos 70 ou 80 vai dizer que toda década carrega suas mudanças, mas o mundo e o cinema mudaram nos 60. Meu cinema é produto daquelas mudanças. Uma maneira mais livre, elíptica de contar histórias.

Sua visão da pré-adolescência parece uma fantasia, sim?

Engraçado que outro jornalista já me perguntou se o filme é a memória de uma fantasia. Como assim, na hora não entendi, mas a pergunta ficou comigo. Seria muito fácil ter feito o filme baseado numa memória, e nostálgico. Os anos 1960, o primeiro amor... Mas eu queria, sobretudo, evitar a nostalgia. Sinto que meu cinema com frequência trata de personagens 'out of place', fora de lugar, mas não de contexto. Apesar disso, nunca quis contar suas histórias permeadas de nostalgia. Prefiro o estranhamento à nostalgia. Tem mais a ver comigo.

O mais curioso do filme é que possui vários personagens masculinos, de diferentes idades, e todos encaram a necessidade de amadurecer. Seu cinema é crítico com o macho americano, concorda?

Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Os heróis de ação não são, nunca foram, meus ídolos. Aqui, em especial, o garoto e os supostos adultos da história parecem viver em mundos paralelos. Todos estão envolvidos nos próprios interesses românticos, mas ninguém entende o outro, salvo, talvez, o menino. Ele consegue ser, naturalmente, mais maduro. Mas isso não é uma crítica à infantilização do macho americano. Quero dizer, é, mas não estou chamando a atenção para isso. Não é o propósito do filme.

E qual é o propósito?

É, de novo e sempre, reafirmar que o mundo e a vida são dinâmicos e que, se você não age, o mundo age sobre você. Há pouco você me perguntou sobre a crítica ao machismo. É bom que o filme tenha atores como Bruce Willis e Edward Norton nos papéis que estão fazendo. A coisa mais interessante de Moonrise Kingdom, para mim, é que os jovens, mesmo sem nenhuma sabedoria, têm uma visão mais clara dos seus desejos e da forma de concretizá-los. Adultos tendem a ser muito complicados.

A casa é um personagem muito importante. Por quê?

A casa é fundamental, como a paisagem. Queria, neste filme, que o espectador tivesse a impressão de estar num lugar estranho, um lugar aonde nunca esteve antes nem no cinema. A casa não é uma, mas várias. Escolhi e filmei em diferentes casas, em diferentes estados, às vezes adaptando características e objetos de uma e outra. Queria que o espaço fosse real, não um delírio de diretor de arte, mas não encontrei em lugar nenhum a casa que buscava. A fantasia do cinema é que você consegue transformar, para o público, diversos locais num só.

A incorporação de Benjamin Britten à trilha é sensacional. Como teve a ideia?

Levei ao diretor musical e ele fez um grande trabalho. Mas é preciso ficar até o fim dos créditos para desfrutar a excelência da trilha.

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