Fabio Motte/Estadão
Fabio Motte/Estadão

Presidente da Ancine, Manoel Rangel, destaca crescimento do cinema mesmo em época de crise

Rangel foi o responsável pela abertura do Seminário Internacional do Audiovisual: regulação e fomento do cinema ao VoD (Vídeo sob Demanda)

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2017 | 03h00

RIO - O audiovisual cresce, em meio “à pior crise da economia brasileira”, como definem os jornalistas da área. Foi o principal ponto da palestra de Manoel Rangel, diretor-geral e presidente da Ancine (Agência Nacional de Cinema) na abertura do Seminário Internacional do Audiovisual: regulação e fomento do cinema ao VoD (Vídeo sob Demanda). 

O seminário, realizado no auditório do Museu Histórico Nacional, no centro do Rio, teve ainda dois convidados importantes: o francês Christophe Tardieu, diretor-geral do CNC (Centre National du Cinéma) e o alemão Peter Dinges, presidente do FFA. São dirigentes dos órgãos de fomento do cinema em seus países. 

Um terceiro convidado, Alejandro Cacetta, presidente do Incaa (Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales), da Argentina, era esperado. No entanto, o governo de Mauricio Macri pediu há pouco o cargo de Cacetta, por supostas irregularidades nas contas. Cacetta recebeu apoio maciço da classe cinematográfica do país, mas teve de sair do mesmo jeito. Sua ausência foi sentida pois, afinal, os vizinhos mantêm com sucesso um Fundo de Fomento ao Cinema que, segundo se diz, estaria na mira das políticas liberais de Macri.

A fala de Rangel teve tom de balanço e despedida. Após cumprir dois mandatos, sai no mês que vem. Segundo as contas prestadas, a agência saiu-se muito bem sob sua direção. A atividade mostrou-se, inclusive, resistente ao longo dos anos de crise. Apresentando gráficos, Rangel mostra que o número de bilhetes de cinema vendidos vem crescendo de ano a ano. “De 156 milhões em 2014, vendemos 173 milhões em 2015 e 184 milhões em 2016”, comemora. As projeções para 2017, levando-se em conta um declínio da curva ascensional em decorrência da recessão, aponta para número ainda superior ao do ano passado: 195 milhões de ingressos. 

Há outras cifras favoráveis. Expansão de salas ao ano: de 71 salas incorporadas ao circuito no período 2003-2010, um salto para 149 novas salas entre 2011 e 2014 e 177 entre 2015 e 2016. “O ritmo de aumento vai cair em 2017”, avisa Rangel, “o que exigirá mais atenção e estímulo para que seja retomado”. Essa expansão não se deu de maneira linear ou localizada. Os números apontam para uma expansão maior nas cidades do interior e das regiões Norte e Nordeste, justamente as mais desassistidas em termos de cinema.

Por fim, a produção de filmes, que quase quintuplicou nos 15 anos de existência da agência, indo dos 29 longas-metragens de 2002 aos 143 do ano passado. Mesmo com a crise, prevê-se que esse recorde será batido em 2017. 

Esse crescimento, analisa o presidente da Ancine, não deve ser visto como espontâneo, fruto do desenvolvimento natural de um setor. “Ele se deve a políticas públicas do audiovisual e políticas sociais de inclusão de partes consideráveis da população de baixa renda na economia”, afirma ainda.

Embora seja ainda a parte mais vistosa do cinema, a exibição do filme numa sala há muito não reponde por toda a realidade do audiovisual. Depois da televisão, do vídeo doméstico, do DVD, das TVs a cabo, estamos vivendo outra revolução com a chegada das grandes empresas como Netflix, Google, Amazon e Apple no mercado de VoD, no qual se assina uma plataforma, ou se paga para fazer o download de uma obra. 

Como toda tecnologia revolucionária também esta vem para desarranjar um modelo de negócios estabelecido. No princípio parece o fim do mundo, mas depois as coisas tendem a se acomodar, pois a tecnologia se impõe e acarreta novos desafios, com perdedores e ganhadores. Trata-se de uma disputa de mercado, tendo de um lado adversários dotados de musculatura poderosa. 

Rangel entende que se deva regular a participação dessas empresas no mercado de modo que práticas predatórias não venham a inibir a expansão dos cinemas nacionais, destruir obras mais frágeis e conduzir a hegemonias de mercado. É um desafio e tanto. Resta ver se a atual política será mantida com a troca de guarda. O ministro da Cultura Roberto Freire já designou o cineasta João Batista de Andrade como sucessor de Rangel.

O esforço pela diversidade esbarra nas políticas globais

Como consolo, pode-se dizer que desafios semelhantes aos do Brasil se apresentam a países de economias poderosas e culturalmente desenvolvidos como os europeus. A expansão da Netflix tem preocupado alemães e franceses, donos de legislação protecionista que mantém a participação de filmes nacionais no mercado interno sempre acima dos 35%. O sinal vermelho acendeu quando se soube que, no próximo Festival de Cannes, dois longas da Netflix, Okja e The Meyerowitz Stories, estarão na disputa. A empresa avisou que os filmes estarão disponíveis para seus assinantes antes de passarem pelas telas do cinema, o que é “uma inversão total”, critica Christophe Tardieu, para quem tudo deve começar pela sala de exibição. 

A questão é que as grandes empresas agem de maneira globalizada e muitas vezes conflitam com legislações nacionais. Por exemplo, a Netflix nem sequer tem escritório na França. Da Holanda, opera para os outros países europeus. “Conseguimos uma vitória ao estabelecer que a taxação deve ser feita no país de consumo e não de origem”, diz Tardieu. Mas ainda precisa do referendo do Parlamento Europeu, em Bruxelas. “O importante é protegermos a diversidade cultural”, concorda o alemão Peter Dinges. 

Tema recorrente nas discussões de política cinematográfica. Tanto assim que o produtor Luiz Carlos Barreto, presente na plateia, interveio e lembrou de antigas lutas pelo cinema como exceção cultural: “Precisamos agora de leis internacionais para garantir a diversidade”.

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