Presidente, tire da UTI a Jornada de Passo Fundo

Como brasileira, a senhora deve se orgulhar da existência, há mais de 30 anos, da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

29 Maio 2015 | 03h00

Presidente Dilma.

Como brasileira, a senhora deve se orgulhar da existência, há mais de 30 anos, da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, das maiores do mundo em tamanho de público, de escritores, editores, sociólogos, designers, palestrantes, de professores e alunos fazendo cursos. Jornada modelo na formação de leitores, uma vez que ela não se esgota na semana em que acontece. Os ali inscritos vêm de todo o Brasil e voltam às suas terras para dar aulas e continuar. As jornadas firmaram-se reunindo nomes consagrados e aproximando autores, artistas e intelectuais dos leitores para, juntos, debaterem as mais diversas temáticas relacionadas à literatura. O número de participantes, em uma mesma edição, chegou a mais de 35 mil em 2011 e 2013 e, na soma das três décadas, superou 180 mil. Não foi por acaso que o governo federal conferiu a Passo Fundo o título de Capital Nacional da Literatura. 

Cara presidente, a senhora deve também se orgulhar de ver que o sucesso de uma jornada realizada no Rio Grande do Sul repercute pelo País inteiro, pela Europa e pelos Estados Unidos, uma vez que autores e editores americanos, franceses, italianos, alemães, ingleses, portugueses, poloneses, espanhóis e outros mais de nomeada têm sido convidados a cada dois anos.

Como presidente, a senhora deve se orgulhar de saber que Passo Fundo tem o maior índice de leitura deste Brasil e o objetivo da Jornada Nacional de Literatura é o de elevar o índice do País inteiro. A senhora não imagina a emoção que é ver 15 mil crianças lotando as seis tendas das Jornadinhas para ouvir e dialogar com autores que elas amam, leem ou que começam a conhecer. E o número sobe a cada ano e deveria chegar, logo, ao 25 mil.

A Jornada levou José Mindlin a exclamar, na noite em que entrou no palco: “Alucinante”. Sorriu e se disse reconfortado com o que via. “Ainda há amor por livros”, acrescentou. Sei, eu estava no palco, ao lado de Luciana Savaget e Alcione Araujo, que fomos mediadores por anos e anos. Também estávamos quando Ariano Suassuna se sentou para dar uma aula magna que durou horas, o homem não queria acabar mais, empolgado e empolgando, tirando risos e aplausos de 5 mil assistentes, média de público normal nos últimos dez anos. “Isto vale uma vida”, exclamou ele, ao término. E o francês Edgar Morin recusava-se a acreditar que aquela multidão atenta estava ali para ouvir falar de livros. “Incroyable”, murmurou, comovido.

O trabalho da Universidade de Passo Fundo, de Tania Rösing, a idealizadora e o trator que sempre moveu a jornada, dos prefeitos da cidade, do grupo Bourbon Zaffari - que criou um prêmio valioso para romance -, de alguns deputados e governadores precisa ser continuado. Passo Fundo acaba de ter sua 16.ª Jornada cancelada por falta de recursos. Sei, ao mesmo tempo, que várias pequenas feiras, jornadinhas, festas, vêm sendo canceladas pelo País afora. Efeito dominó. Não pode virar avalanche.

Cara presidente, por favor, por um minuto, chame seu ministro da Cultura, convoque os órgãos que cuidam das artes, do dinheiro, do planejamento, faça uma reunião de emergência e olhe para este Brasil que acaba de sofrer um sério e duro golpe. A jornada acaba de ter um enfarte. Precisamos salvá-la! Ainda há tempo, vamos levá-la para a UTI, colocar stents, fazê-la respirar, acontecer. 

A senhora lutou na resistência armada. Junte-se a nós, agora, na resistência cultural. A Câmara do senhor Cunha pretende gastar um bilhão de reais com um novo prédio e um shopping. Tire deste bilhão alguns centavos, digamos, alguns milhões, e coloque na jornada. Não fará mal ao conforto dos parlamentares, mas fará um bem imenso à cultura. Nós destas trincheiras não queremos cargos, benesses, privilégios, trocas dos postos, ministérios, autarquias. Tudo o que desejamos é reerguer uma instituição que prega o amor ao livro, à leitura, à literatura, ao sonho, à imaginação, ao crescimento. Vamos colocar de pé, outra vez, a Jornada de Passo Fundo. 

Ganhe, presidente, esta batalha pelo futuro cultural.

Ignácio de Loyola Brandão e todos os escritores brasileiros que já participaram e ainda vão participar da Jornada, ela não pode morrer. 

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