Johan Persson
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Prêmios, Will em francês e robô

Constância é a regra para não perder o tom

João Wady Cury, O Estado de S. Paulo

12 Abril 2018 | 02h00

Londres — A peça tem quase três horas de duração, se passa numa cozinha de fazenda e tem uma arapuca: uma viúva sensualíssima, apaixonada pelo cunhado, que mora de favor com a família dele, inclusos aí uma dezena de filhos, a mulher tísica e três velhos. Visualizou? Essa belezura papou três dos principais prêmios do Laurence Olivier Awards 2018 esta semana, referência do teatro mundial. Chama-se The Ferryman e é o novo drama de Jez Butterworth. Vem lotando o Gielgud Theatre desde a estreia, ano passado, em suas oito sessões semanais. Sim, oito sessões, teatro como profissão. 

The Ferryman é sucesso porque tem elenco forte e coeso. Constância é a regra para não perder o tom.

A montagem levou a escultura de peça do ano, diretor (Sam Mendes, pela terceira vez) e atriz para Laura Donnelly – já não está mais no elenco, substituída por Rosalie Craig (foto) desde novembro. 

The Ferryman toca no coração do inglês: 1971, uma família irlandesa feliz prepara-se para a colheita anual, mas surge uma visita com uma revelação sobre um parente morto anos atrás. Junte-se a isso as ações do IRA (Irish Republican Army) pela independência da Irlanda do Norte e um amor não realizado entre um homem e sua cunhada, viúva do tal falecido. Nitroglicerina pura. E ela tem nome: Rosalie Craig é a dona do palco, mas em novembro ela deixa a peça para estrelar o musical Company

Tem muito mais de onde saiu isso. De uma semana para cá duas estreias nos palcos ingleses. Péricles – Príncipe de Tiro começou carreira no Barbican Centre. Sim, escrita pelo bom e velho Will Shakespeare. Em vez de ser na língua do bardo a dita cuja chega em francês, primeira encenação da companhia Cheek by Jowl, dos badalados diretores ingleses Duncan Donnellan e Nick Ormerod, na língua de Molière. A dupla de diretores coloca o príncipe protagonista (interpretado por Christophe Grégoire, na foto) em um hospital, agonizante e delirante. Atores e atrizes interpretam diversos personagens com os mesmos figurinos. E, para completar, uma correria ininterrupta leva a confusão do palco para a plateia. Duas pessoas saíram antes dos primeiros 15 minutos, a recepção foi morna. Will é quem agoniza.

Instructions for Correct Assembly (Instrução para montar corretamente) é a estreia do dramaturgo Thomas Eccleshare no Royal Court e trata de casal da classe média inglesa que vê o filho sair de casa para a universidade. Talvez prenunciando a solidão, compram pela internet um robô para fazer as vezes de filho. Montam a geringonça, dão-lhe um nome, mas a coisa parece não dar certo, tanto o robô como a peça – ingênua e recheada de clichês. O que resta, agora, é olhar para frente.

Quarta, 18, estreia The Prudes (Os Caretas), nova peça de Anthony Neilson. Promete porque Neilson é velho de guerra. Que o bom e velho Will nos proteja.

3 perguntas para... Rodrigo Bolzan

1. Por que teatro?

Dá para dançar, fazer acrobacia e dizer umas palavras, junto de gente boa de encontrar.

2. O que é ser ator?

É escutar e olhar bem para alguém. 

3. Frase arrebatadora.

“Este é um ato que deve ser produzido aqui e agora”, em Oxigênio, de Ivan Viripaev.

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