Divulgação
Divulgação

Première Brasil abre janela para produções trangressivas e fortes

Principal vitrine do cinema brasileiro tem mostrado grandes filmes no Festival do Rio

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

09 Outubro 2012 | 03h13

Na semana passada, o repórter escrevia aqui que dificilmente surgiria na Première Brasil filme melhor do que A Busca, de Luciano Moura, com Wagner Moura. O impossível está ocorrendo no Festival do Rio. A Première Brasil, principal vitrine do cinema brasileiro, tem mostrado grandes filmes. Surgiu outro tão bom quanto A Busca. O mais interessante, ou mesmo impressionante, é que O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, não poderia ser mais diferente. E viva a diversidade. O filme embola tudo - a disputa pelo troféu Redentor nas categorias de filme, diretor e ator, com o poderoso Irandhyr Santos.

Wagner Moura, na Busca, faz um homem cuja vida já implodiu na primeira cena. Ele está desesperado no meio da estrada, ouve-se o som do que parece um acidente de carro. Na sequência, vemos esse homem chegar numa casa que está sendo desmontada. O casamento acabou, ele não tem diálogo com a mulher nem com o filho. O garoto some, cai na estrada. E no lombo de um cavalo. Como? "Traz o meu filho", geme a mãe chorosa, Mariana Lima. Wagner, como um herói trágico, vai tentar refazer sua família, mas o tempo todo ele está instável.

Irandhyr Santos, pelo contrário, é o homem em controle da situação. Frio e metódico. É o segurança que oferece seus serviços em O Som ao Redor. Ao contrário de A Busca, que conta uma história - a de um pai em busca do filho -, O Som ao Redor conta diversas histórias para não contar história nenhuma. É uma crítica que algumas pessoas fazem ao filme. Ele é muito mais uma obra de observação social. Situado no Recife contemporâneo, seleciona um recorte da cidade - uma comunidade, uma rua. Mas, nessa rua, o diretor consegue conter todo o Recife e todos os conflitos da sociedade pernambucana.

Há esse senhor de engenho que vela sobre os destinos de todos. Ele tem dois netos - o que é corretor e vende os apartamentos do avô e o outro, a ovelha negra da família, ladrão de carros. O quadro de personagens amplia-se - a mulher que sofre de insônia e o cão que ladra (e inferniza a vida dela), a doméstica do velho coronel, que vai para a cama com o segurança. O tempo todo, sem narrar propriamente uma história, Kleber Mendonça Filho cria uma tensão subterrânea. Esse mundo vai explodir, mas como? Qual o papel do personagem de Irandhyr na explosão? Quando ela vem, é um anticlímax que não tem o efeito de descarga dramática para o espectador. Não o liberta como a catarse das tragédias gregas.

Kléber Mendonça Filho foi crítico, antes de virar cineasta. Mas, como ele diz, parou com a crítica durante o processo desse filme que começou a surgir em 2008 e talvez antes. Diretor de curtas, ele era cobrado - para quando o longa? Kléber olhava o mundo ao redor, e anotava. Naquele ano, bateu a urgência e, em uma semana, ele escreveu o primeiro tratamento do roteiro para não perder o prazo de inscrição nas leis de patrocínio. Um primeiro roteiro em uma semana? Bruno Safadi, diretor de Éden, também conta que filmou em duas semanas, mas depois de quatro anos de depuração do projeto. Foi como passar o filme pela câmera. Roteiro, pré-produção, realização. Essa parte do processo de O Som ao Redor durou em torno de um ano - a montagem demorou um ano e quatro meses.

O diretor não pensou em influências, mas admite que a maneira de amar o plano e criar o espaço, a integração da arquitetura, tudo tem ver com os primeiros filmes de Roman Polanski, nos anos 1960. Todos - de A Faca na Água a O Bebê de Rosemary -, subvertem, pela tensão e pelo estranhamento, o que parece uma visão perfeitamente normal (ordinária?) da vida. De repente, é como se o espectador estivesse num filme de terror (psicológico) - e um efeito parecido se instala em Éden, de Bruno Safadi. Kléber Mendonça Filho diz, a propósito, que é legal que seu filme esteja passando no mesmo Festival do Rio que homenageia John Carpenter - o príncipe do terror de Hollywood. Um terror que vem das bordas, de algo mais profundo, que não parece estar na imagem. A mulher, desesperada, atira um pedaço de carne com sonífero para o cão. Ele parece morto. Estará? O passeio pelo cinema em ruínas, no engenho, ativa sons. Realidade, imaginação? Existem cenas sonhadas de perigo - aquilo é de verdade, ou não?

O cinema brasileiro tem dado provas de diversidade na Première Brasil. Algo de muito interessante está se passando em A Busca, em O Som ao Redor, em Meu Pé de Laranja Lima, de Marcos Bernstein, em Éden, de Bruno Safadi, no próprio O Gorila, de José Eduardo Belmonte, que tem seus defensores apaixonados entre a crítica. Esse algo inclui a animação Uma História de Amor e Fúria, de Luis Bolognesi, e documentários como O Dia Que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares, e Jards, de Eryk Rocha. Um cinema forte, transgressivo. As apostas de bilheteria continuam sendo as comédias como Até Que a Sorte nos Separe, de Roberto Santucci, ou os filmes de grande espetáculo, épicos (por que não?) como Gonzaga, de Breno Silveira. Mas o azarão Totalmente Inocentes, de Rodrigo Bittencourt, já bateu 500 mil espectadores. Tudo é possível. O cinema do Brasil pulsa em muitas caras.

Mais conteúdo sobre:
Festival do Rio Première Brasil

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.