Nelson Almeida
Nelson Almeida

Prédio de 13 andares no centro de São Paulo é ocupado por grupo de artistas

Edifício na Rua do Ouvidor traz uma fábrica de ideias em meio ao caos da capital paulista

AFP

12 Agosto 2017 | 16h00

Um malabarista equilibra suas maçãs no sexto andar, uma banda toca rock no terceiro e um pintor finaliza sua obra no sétimo andar da Rua do Ouvidor, 63. Esse edifício, ocupado por diversos artistas no centro de São Paulo, só aceita moradores criativos. Nas paredes coloridas desse imóvel em ruínas, grafites e ilustrações quebram o cinza.

Propriedade do Estado de São Paulo, o prédio de 13 andares estava desabitado quando, há três anos, um grupo de artistas o ocupou para convertê-lo em um centro cultural e de moradias artísticas. Grafiteiros, músicos, artistas de circo e desenhistas convivem em comunidade com cerca de 100 pessoas. Não há líderes no Ouvidor, tudo é decidido nas reuniões semanais de cada andar e depois submetido ao voto da assembleia.

Incluindo a admissão de novos membros, que devem chegar apoiados por outro morador e levar um projeto criativo. “A princípio, você tem que ser hospedado por alguém aqui no prédio. Se você se adaptar, tiver um projeto bacana, trabalha no prédio, pelo coletivo. Você vai entrar em lista de espera e quando surgir um quarto, vai entrar”, explica o pintor D’Julia Gangary, enquanto retoca um quadro. Em seu estúdio dormitório, esse artista de 41 anos conta como a sua chegada ao prédio mudou os seus planos. Ele voltava de uma viagem quando o convidaram a criar um ateliê de gravuras. Ficaria apenas por alguns meses, mas já está ali há um ano e meio. “Nossos projetos na maioria são gratuitos, ou a gente arrecada verba para a manutenção do prédio A gente faz permuta sempre.” Embora viver em comunidade não seja sempre tão tranquilo, agora se sente parte de algo maior. Em um andar abaixo, Giuseppe Gordillo, de 26 anos, mantém o equilíbrio sobre uma alta estrutura de três rodas. Desde que começou a trabalhar com malabarismo viajando pela América do Sul, o colombiano se apaixonou pelo circo. Por isso, decidiu voltar ao Brasil com sua companheira e a filha de 3 anos para fazer de sua paixão um estilo de vida. “Quando chegamos a La Paz, alguns amigos chilenos nos falaram da ocupação e decidimos vir para São Paulo”, relembra.

Atualmente, moram no prédio cerca de 30 estrangeiros, a maior parte artistas latino-americanos. Há alguns dias nasceu um bebê no mesmo andar, aumentando o número de crianças do Ouvidor, onde agora moram sete filhos de artistas.

Cada morador procura o seu espaço em meio à confusão do edifício. Como Vanessa, uma artista de 23 anos que interrompeu a sua viagem pelo Brasil em um antigo Fusca junto com a sua cadela para passar um tempo na ocupação, e viu que faltava algo.

“Quando cheguei aqui em novembro não havia um espaço determinado somente para as mulheres. Lancei essa ideia, consegui hospedar duas moças que estão dentro do movimento feminista, e agora a gente tem um andar inteiro que é direcionado para as mulheres”, conta. O novo projeto ocupa o nono andar.

Apesar da constante ameaça de desalojamento, a lista de espera para conseguir abrigo na comunidade continua longa. Dono do imóvel, o Estado já o levou a leilão em duas ocasiões, mas não recebeu nenhuma oferta, contam moradores. Questionado, o governo informou que o Conselho de Patrimônio está elaborando uma “proposta de concurso público para vendê-lo”

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