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Precursores da escrita afro-brasileira

O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2012 | 02h 09

Na semana da consciência negra, pesquisador analisa a rara presença de autores afrodescendentes na história literária brasileira

No arquivo da literatura brasileira canônica, o negro, quando presente, surge muito mais como tema do que como voz autoral. Examinados os manuais de nossa história literária, verifica-se a quase completa ausência de autores negros, fato que configura nossa literatura como predominantemente branca, e que aponta para critérios críticos pautados quase sempre por um formalismo de base eurocêntrica, que deixa de fora experiências e vozes dissonantes, sob o argumento de não se enquadrarem em determinados padrões de qualidade ou estilos de época.

Já no âmbito da literatura negra ou afro-brasileira - pautada por autoria, linguagem e ponto de vista empenhados em resgatar a humanidade e o papel histórico dos escravizados e seus descendentes, a partir mesmo da linguagem que os retrata - é outro o lugar do negro. E, aqui, toma-se como premissa o reconhecimento da existência de um segmento específico - afro-identificado - presente em nossas letras. Esta vertente se constitui aos poucos, tendo como marco inicial o trabalho de precursores como Domingos Caldas Barbosa, com sua Viola de Lereno, ainda no século 18; Luiz Gama, com suas Trovas Burlescas de Getulino (1859); e Maria Firmina dos Reis, cujo romance Úrsula (também de 1859) traz pela primeira vez às nossas letras a África e o porão do navio negreiro.

Nesses textos, a representação do negro ganha contornos específicos. Na poesia, Luiz Gama refuta a herança europeia e se proclama "Orfeu de Carapinha", a clamar pela "Musa da Guiné" ou "de azeviche", em poemas como A Bodarrada e outros. E na prosa, Maria Firmina dos Reis ousa colocar o negro como referência moral da narrativa. A autora maranhense se apropria do discurso judaico-cristão a fim de condenar o escravismo e trazer o comovente relato da Preta Suzana sobre a própria captura e a viagem no navio negreiro. O texto de Úrsula ganha contornos fortemente realistas devido à semelhança com relatos memorialísticos de ex-escravos, só posteriormente divulgados.

Já em Machado de Assis pode-se ler a crítica ao mundo dos brancos, marcada pela ironia e por um conjunto de procedimentos dissimuladores. O ponto de vista afro-identificado nem sempre se explicita como em muitos autores contemporâneos e isto tem a ver com público leitor do século 19. O próprio Machado se considerava um "caramujo" a dissimular sua negrícia perante o leitor branco de seu tempo. É um capoeirista da linguagem, como já afirmou Luiz Costa Lima. Por trás da aparente superficialidade de muitos de seus contos e romances, como Helena, emerge a humanização do escravizado e a crítica ao discurso senhorial. Machado é precursor da literatura afro-brasileira por diversas razões. Ressalte-se apenas duas, a segunda decorrente da primeira: o ponto de vista afro-identificado, não branco e não racista, apesar de toda a discrição e compostura do "caramujo"; e o fato de matar o senhor de escravos em seus romances, criando um universo ficcional que é alegoria do fim da escravidão e da decadência da classe que dela se beneficiava.

O negro surge marcado pela perspectiva interna também na ficção de Lima Barreto, que faz dele um ser humano livre de estereótipos, como em Recordações de Isaías Caminha (1909) ou em Clara dos Anjos (1948). Ambos vítimas de preconceito, Isaías e Clara são jovens que sentem na prática o peso social do estigma representado por sua condição étnica. E, pela via do drama que protagonizam, transmitem aos leitores um forte painel das desigualdades raciais presentes na principal cidade do país nas décadas seguintes à abolição.

Outro precursor é o maranhense José do Nascimento Moraes, sempre ausente da historiografia literária. A narrativa de Vencidos e Degenerados (1915) se inicia às 8 da manhã do dia 13 de maio de 1888, algo raro, para não dizer inédito, no romance brasileiro. Além de toda a agitação ocorrida em S. Luiz, traz quase como crônica histórica as reações provocadas pela nova situação na subjetividade e no comportamento de antigos senhores e dos novos homens e mulheres livres. Moraes traça um panorama realista do regime servil e de sua continuidade sob novas formas de exploração, respaldadas pelo racismo, tal como previsto por Machado de Assis.

E, muito antes de Gilberto Freyre, desconstrói o mito da democracia racial e a representação do 13 de maio como happy end apaziguador das tensões resultantes da herança deixada por séculos de escravidão. Ao longo das últimas décadas, um grande número de escritores e escritoras retomam de várias formas esse legado e têm na representação da desigualdade e do preconceito um dos pontos centrais de seu projeto literário. Esse veio afro, que se faz perceber pela articulação dos pontos de convergência apontados, ampara-se numa visada contemporânea e pós-nacional para constituir um suplemento - algo a mais que chega para abalar a presumida unidade existente na literatura brasileira.

EDUARDO DE A. DUARTE É AUTOR DE LITERATURA, POLÍTICA, IDENTIDADES (2005) E ORGANIZADOR DA ANTOLOGIA CRÍTICA MACHADO DE ASSIS AFRODESCENDENTE (2007)

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