Precisamos falar sobre o Harvey

O outono do hemisfério norte abre oficialmente a temporada de caça ao urso no Estado de Nova York. É uma prática regulada pelo governo que ajuda controlar a população ursina local. Já a temporada de caça a Harvey Weinstein, um gajo que, se perambular num quintal em noite sem lua, arrisca ser confundido com um urso, foi aberta na semana passada.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 03h00

Não ouviu falar de Harvey Weinstein? Ouviu falar de O Paciente Inglês, Shakespeare Apaixonado, Gangues de Nova York, O Discurso do Rei, Bastardos Inglórios e Django Livre? Pois é, apenas um punhado dos filmes produzidos pelo homem que, com o irmão Bob Weinstein, mudou a história do cinema independente, a partir do final do século passado.

Em Nova York e Los Angeles, ouvimos falar de Harvey há mais duas décadas e havia dois tipos de conversa sobre o rotundo produtor. A pública, que tratava de sua coleção de Oscars, sua visão e seu temperamento controverso, e a privada, entre atores, produtores e, sim, jornalistas: Harvey Weinstein era um assediador serial de mulheres jovens em começo de carreira. Era, porque, a partir da reportagem bomba do New York Times, dificilmente ele vai conseguir ficar a sós de roupão com uma assistente ou atriz aspirante e exigir massagem.

Percebi que ia assistir a um espetáculo inspirado na reportagem do Times, cuja publicação Harvey tentou impedir com uma tropa de choque de advogados. Não conhecia detalhes sórdidos do comportamento do produtor a portas fechadas, mas sua brutalidade era notória, em disputas com diretores, estúdios e distribuidores. Em 2000, durante uma festa, Harvey jogou um repórter escada abaixo porque não gostou da pergunta que ouviu. Confesso que não fiquei chocada com alegações de atrizes conhecidas que se calaram durante décadas e aceitaram a troca faustiana que resultou em fama. 

O espetáculo a que me refiro é a chanchada previsível estrelada por políticos e celebridades agindo como o inspetor Renault do filme Casablanca, que diz a Humphrey Bogart estar chocado por descobrir jogo dentro do café, enquanto embolsa o que ganhou naquela noite. Sim, Harvey Weinstein deve ser execrado em público. O Reino Unido provavelmente vai tomar a Ordem do Império Britânico honorária que lhe conferiu. Sua empresa, onde Malia Obama estagiou durante o verão, enfrenta um futuro incerto, com a demissão sumária do fundador, decidida ontem à noite. Trata-se de um homem que, um estudo revelou, recebia mais agradecimentos nos discursos de ganhadores de Oscars do que Deus. Os políticos do Partido Democrata, que teve em Harvey um doador generoso, estão devolvendo o que receberam, entregando as somas para organizações que combatem violência contra a mulher. Tudo isso é apropriado, precisamos falar sobre Harvey.

Mas, como hão de saber leitoras que se empregaram, seja numa casa de família, numa escola ou numa grande corporação multinacional, a história de Harvey Weinstein só é chocante para quem mora numa caverna. Não se faz uma carreira impune de assediador sem privilégio e cúmplices. O próprio Harvey deu uma desculpa ridícula para seu passado. Alegou que cresceu nos anos 1960/70, quando os costumes eram outros. Ou seja, me desculpem, mas o que é crime hoje era um pecadilho tolerado no meu tempo.

As jovens assistentes que ele violentou foram vítimas, não dos tempos, mas do privilégio que existia então e resiste no presente. Na semana passada, um colérico defensor da criminalização do aborto no Congresso foi forçado a renunciar. O deputado Tim Murphy, casado, teve um caso com uma mulher, ela engravidou e ele sugeriu, adivinharam, que ela fizesse o que ele diz ser homicídio. Foi flagrado com as calças de seu privilégio arriadas.

Se, de repente, tantos precisam falar sobre Harvey, por que não fazem isso diante de um espelho?

Mais conteúdo sobre:
Harvey Weinstein

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.