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Potências carnavalescas

Roberto DaMatta

Escrevi a crônica passada antes do carnaval. Hoje, conto como eu me entendi com esse enorme feriado que “nada comemora porque tudo festeja!”.

Produzi essa suprema definição antropologicamente embriagado, quando curtia com a minha turma de velhinhos potentes, porque fantasiados, no bar do Soares, aqui em Niterói, mais esse ritual de riso com esquecimento.

Toda festa tem um sujeito – prossegui –, mas o carnaval recusa tanto um centro quanto um dono e aí reside sua potência. Espremido entre o Advento e a Quaresma, na qual estamos metidos e que será um momento de conflito e disciplina, conforme determina o calendário católico romano que, mesmo modernos, até hoje seguimos, graças à nossa ausência proverbial de crítica e de uma santa ignorância.

Dick Moneygrand, que veio dos Estados Unidos e estava fantasiado de sultão, adorou a teoria e apalpou a mão de sua mais jovem companheira, a belíssima Alex que – devidamente fantasiada de odalisca – deixava que um Mario Batalha, general da reserva muito sério, mas ajeitando o óculos, visse suas coxas claras e firmes.

“Uma delícia...”, repetia lambendo os lábios Quiquito Lacraia (desembargador aposentado que ganha mais do que todos nós), o mais velho e o mais carnavalesco da turma; e estava fantasiado de pirata da perna de pau! Lacraia contrastava com Romano (um soturno filólogo e gramático) que, desta feita, não estava vestido de Nero, mas fantasiado de político brasileiro. Usava uma desbotada faixa presidencial e uma máscara dupla: um lado ria; o outro, chorava. Carismático, ele explicava, concordando comigo, que a conjunção do riso com o choro representava o espírito da festa e perguntava a toda hora: que país é este?

A potência do carnaval estava nessa recusa da realidade. Criamos um universo fantasiado que não desprezava o passado. Aceitava-o, reproduzindo-o em seus componentes mais suntuosos nas figuras míticas de reis, heróis míticos encarnados em celebridades. A alegoria é uma repetição que anula o tempo, deixando ver o lado mais sedutor das dominações aristocráticas.

É o “inverso do reverso”, perorou rindo e não rindo Walter Zend (empresário aposentado), usando um capacete de explorador, pois estava devidamente fantasiado de “antropólogo pós-estruturalista” – aquele que não vê nativos, mas ideias –, conforme repetia tomando goladas do bom uísque que trouxe para a nossa mesa.

Como duvidar da realidade do carnaval que neste ano de catástrofe ética – um desfile de imoralidades públicas e particulares – reafirmou como nunca o “inverso do reverso” tal como faz um mito ou os neuróticos freudianos negando fortemente o que eram. No carnaval, todo mundo mente quando diz a verdade e mascarado, revela a verdade, mentindo.

Tal como as nossas fantasias, disse eu, envergando uma estúpida fatiota de caubói devidamente desarmado porque, conforme me alertou Sivoca (antigo comandante da Varig sem aposentadoria ou fantasia), seu revolver de brinquedo pode ser visto como de verdade. A inversão do inocente em pecador é o enredo de um sistema que até hoje teme ver sua forte cadeia hierárquica.

Nisso, chegou o irrequieto Albertão (trapezista e ator de circo) fantasiado de “raridade”, pois estava travestido de “virgem” e usava a camisola de seu companheiro. Chegava com João Boca-Mole (ex-chefe de cerimonial do governo), cujo prazer consistia em nos provocar politicamente pois definia-se como um “radical suave”. Se Albertão estava de camisola, o Boca-Mole vivia o papel de revolucionário – conceito em moda, dizia ele – e portava na mão direita uma foice e, na esquerda, um martelo de papelão com purpurina, com os quais ameaçava, às gargalhadas, os mais reacionários da turma.

Chamávamos atenção. Até mesmo os blocos livres, mas legalmente licenciados, de jovens bêbados e agressivos, fantasiados com sua nudez que passavam mijando, admiravam o nosso grupo. Por causa disso, pausavam o seu característico, mas até hoje inconsciente “passo-Brasil” – três hesitantes passadas pra frente e quatro alegres e definitivas caminhadas pra trás – enquanto erguíamos nossos copos.

Estamos brilhando, disse Miroca (recém-operado da próstata e professor fantasiado de empresário-presidiário). Somos contra o espalhafato, mas a potência carnavalesca nos coage – um bando de membros natos do conservadorismo burguês – a liminaridade, como disse Vic Turner.

Tudo isso, porém, passou provocando um grato sentimento de ser que chegava por meio de um riso capaz de conjugar senilidade e potência de um bando de velhinhos fantasiados.

Como um rito fragmentado, o carnaval pode ser de todos. Não em teoria, mas em afeto e emoção. Essas coisas pouco elaboradas que, como um beijo, põem em risco o nosso ser ou, quem sabe, toda uma vida.

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