Poluição digital

Ele ou ela, não se sabe, conseguiu desativar a conta de Twitter do presidente americano pouco antes de se despedir da empresa, na sexta-feira. O silêncio durou 11 minutos,

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

06 Novembro 2017 | 06h00

Ele merece um prêmio Nobel!” clamaram, em uníssono digital, milhares de internautas. Ele ou ela, não se sabe, conseguiu desativar a conta de Twitter do presidente americano pouco antes de se despedir da empresa, na sexta-feira. O silêncio durou 11 minutos, o bastante para a reação de alívio expor a exaustão coletiva com o ano de governo por sobressalto via rede social. O incidente provocou também um frio na espinha: E se um funcionário renegado conseguir hackear a conta presidencial e anunciar a iminência de um ataque a um país adversário?

O poder da rede social é o dilema político do ano. A nova edição da revista The Economist traz o “f” de Facebook transformado numa pistola sob a manchete: “A ameaça da rede social à democracia.” O bilionário filantropo e fundador do eBay, Pierre Omidyar, um membro da tribal elite do Vale do Silício, publicou, no Washington Post, uma lista de seis maneiras como, a seu ver, a rede social já ameaça diretamente os regimes democráticos. A lista reflete um debate já em curso, sobre o aumento da polarização e da intolerância em política e o isolamento em câmaras de eco. Mas destaco dois outros argumentos de Omidyar. Primeiro, confundir popularidade com legitimidade, algo especialmente nefasto no sistema eleitoral e que confere poder a trolls e robôs para disseminar opiniões. O outro fenômeno nocivo é o uso de microtargeting e psicometria eleitoral para manipular e provocar alteração de comportamento. Esta prática chega com força ao Brasil a tempo de ser usada na campanha de 2018, com a associação da Cambridge Analytica à empresa do marqueteiro de São Paulo André Torretta.

A Cambridge Analytica ajudou a eleger o atual presidente americano e sua participação na campanha pró-Brexit está sendo investigada por autoridades britânicas. A empresa, segundo a publicação Daily Beast, entrou em contato com Julian Assange, em 2016, oferecendo ajuda para a Wikileaks vazar os 33 mil e-mails apagados do servidor de Hillary Clinton. Assange confirma que foi procurado e negou a cooperação.

Na semana passada, em Washington, o Senado e a Câmara sabatinaram, em sessões públicas, representantes do Facebook, Twitter e Google sobre a interferência russa nas eleições, seja por anúncios na campanha eleitoral, por difusão de notícias falsas ou por ação de bots, os robôs digitais gerados por algoritmos. Espero que juízes e funcionários do TSE em Brasília troquem temporariamente a Netflix pelas longas sessões com os executivos. O despreparo da rede social para a exploração de campanhas eleitorais é assustador. O Facebook aceitou anúncios políticos dirigidos a dezenas de milhões da americanos e pagos em rublos sem soar qualquer alarme.

Na audiência do Congresso, os executivos do Vale do Silício continuaram insistindo que operam plataformas neutras e não, de fato, companhias de mídia sem as amarras legislativas da mídia tradicional. Quanto mais se conhece o papel das empresas digitais na fratura política e eleitoral nos EUA e na Europa, mais é enfraquecido o argumento da autorregulação.

A autora e autodenominada “tecno-socióloga” Zeynep Tufekci alerta, desde a segunda vitória de Barack Obama, em 2012, para os efeitos potenciais do microtargeting eleitoral na rede. Ela usa uma noção de economia, externalização de custos, para indicar a posição cada vez mais insustentável dos gigantes tech. A sociedade está arcando com os resultados negativos de toda uma atividade econômica e um exemplo gritante é o vale tudo que permitiu a trolls russos convocar manifestações políticas em solo americano via Facebook. Se leis impedem que grandes indústrias poluidoras não emporcalhem o meio ambiente, como faziam há mais de um século, o que vai ser preciso para regular a poluição digital?

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