Polêmica e interação marcam Bienal de Veneza

Começa neste domingo, para o público, com o tema genérico Pense com os Sentidos, Sinta com a Mente, a 52.ª edição da mostra mais tradicional do mundo

Agencia Estado

12 Junho 2007 | 04h02

A Bienal de Arte de Veneza, um dos mais prestigiosos eventos culturais internacionais, começa oficialmente neste domingo, 10, batendo recordes, com muita interatividade, algumas polêmicas e destaque para trabalhos com temáticas fortemente sociológicas e socioculturais, entre elas feminismo, guerra, pobreza e abuso sexual. Em sua 52.ª edição e tendo como tema a frase "Pense com os sentidos, sinta com a mente: arte no presente", o evento conta com o recorde de 76 países participantes, uma centena de artistas e uma seção para a produção contemporânea do continente africano, chamada Check List. Se forem levadas em consideração as 34 mostras espalhadas pela cidade em eventos complementares à Bienal, são mais de 500 artistas presentes. A controvérsia ficou por conta da briga e a troca de acusações envolvendo o diretor artístico Renato Quaglia e o curador da Bienal, o americano Robert Storr. Quaglia reclamou dos altos custos, em torno de 10 milhões de euros, e pediu demissão. Storr, por outro lado, afirmou não ter ultrapassado a previsão de gastos e disse que Quaglia pouco entendia de artes visuais. Choque e sensação Respondendo a críticas, Storr disse que as obras expostas não foram escolhidas em função de seu gosto pessoal ou por estarem automaticamente ligadas ao mercado das artes. "São trabalhos com características do momento atual, que se relacionam entre eles, apesar de produzidos por diferentes artistas ", disse o historiador de arte e pintor Storr, que organizou exposições em diversas partes do mundo, inclusive em São Paulo, onde foi responsável pela mostra de Bruce Nauman, na Bienal de 1998. "São obras que interpretam problemas, que propõem alguma coisa através da experiência." Tracy Emin, a controvertida artista plástica conceitual inglesa, conhecida por apostar no choque e na sensação em suas mostras, apresenta em Borrowed Light uma série de desenhos, pinturas e neon, segundo ela, muito mais amena que seus trabalhos anteriores. Mesmo assim, uma das seis salas do pavilhão inglês, onde está a individual de Emin, é totalmente dedicada a desenhos de órgãos sexuais masculinos. No pavilhão dos países nórdicos, destaque para a agência de viagens fictícia que leva pessoas de férias a Bagdá, criada por Adel Abidin, nascido no Iraque e que vive na Finlândia. É um espaço de total interatividade. No computador, onde devem ser feitas as reservas de passagens, hotéis, restaurantes, as dicas turísticas não são usuais: é recomendado ficar no hotel de pior qualidade possível, escolher restaurantes escondidos e não sair para olhar nada, porque os lugares bonitos que existiam já foram destruídos ou saqueados. Em uma sala, pode-se ver um vídeo com imagens da vida hoje na cidade e ouvir recomendações sinceras e irônicas do que se pode encontrar em Bagdá. No local, há também pilhas de cartazes com imagens fortes da guerra e a frase "Bem-vindo a Bagdá" impressa no alto que os visitantes podem levar para casa. Morrinho O sueco Jacob Dahlgren apresenta um enorme muro, onde é possível jogar dardos e mudar constantemente sua obra. No pavilhão americano, com Félix Gonzalez-Torres, e no japonês, com Masao Okabe, há espaço para interatividade e modificação constante das obras. Mas a atração mais divertida, fica por conta dos brasileiros do Grupo Morrinho. A réplica da favela do Pereirão, que ocupa uma área de 300 metros quadrados, é impactante. O público é convidado a conhecer a realidade do morro carioca em meio a brincadeiras dos 10 jovens do morro que se encontram na cidade. "Não tem nada melhor nesta Bienal", disse o empresário Giorgio Bacaglia. "O trabalho deles é incrível. Não consigo parar de admirar." Fundada em 1895, a Bienal de Veneza é realizada a cada dois anos entre o Arsenale - uma área que pertence à marinha italiana - e o Giardini, um parque onde estão instalados os pavilhões dos países. Apesar de abrir as portas para o público no domingo, a festa das artes de Veneza começou na última quinta-feira, com uma série de inaugurações exclusivas para colecionadores de artes, jornalistas, artistas e convidados especiais.

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