Reprodução
Reprodução

Poesia, poder e o colapso europeu

Concluído no exílio durante a 2ª Guerra, A Morte de Virgílio, de Hermann Broch, discute o papel da literatura no mundo

Jorge de Almeida, O Estado de S. Paulo

29 Março 2013 | 22h00

Em março de 1938, alguns dias após a "anexação" da Áustria pelos nazistas, o escritor Hermann Broch (1886- 1951) foi preso pela Gestapo, em Viena. Liberado graças à intervenção pública de intelectuais do mundo inteiro, Broch conseguiu escapar para os Estados Unidos, levando consigo o trauma da violência, uma visão sombria do destino da cultura europeia, e os manuscritos de uma primeira versão de A Morte de Virgílio. Inteiramente reescrito no exílio, sob o impacto das trágicas notícias da guerra, o romance foi finalmente publicado em 1945, e retorna agora às livrarias brasileiras, na bela tradução de Herbert Caro.

A obra narra o último dia de vida do poeta latino Virgílio, convocado a Roma, mesmo doente, para as comemorações de aniversário do imperador Octaviano Augusto. A lembrança desse encontro histórico entre literatura e poder se torna o pretexto para uma reflexão sobre o sentido da morte, pressentida na primeira parte (Água, a Chegada), anunciada na segunda (Fogo, a Descida), aceita e preparada na terceira (Terra, a Expectativa) e consumada metafisicamente na última (Éter, o Retorno). O mesmo Virgílio, guia de Dante em sua visita ao Inferno, transforma-se no intermediário das indagações filosóficas de Broch, diante dos traumas da Segunda Guerra.

O tema da morte também afeta a forma e o estilo da obra. Do início realista ao longo monólogo lírico do final, acompanhamos Virgílio por vários estados de consciência, nos quais memórias, reflexões e sonhos se misturam às cenas e diálogos vividos pelo poeta em seus últimos momentos. Como na trilogia Os Sonâmbulos (escrita nos anos 30 e publicada recentemente pela mesma editora Benvirá, em ótima tradução de Marcelo Backes), aqui Broch também incorpora à narrativa diversos poemas e digressões filosóficas, além de dezenas de citações da obra de Virgílio, num mosaico saudado por Thomas Mann como um "dos experimentos mais incomuns e minuciosos" da literatura moderna.

Apesar da metafísica própria ao tema da morte, que levou Hanna Arendt a identificar o romance como "uma grande reflexão filosófica sobre a verdade", outro importante assunto sobressai: a autocrítica da literatura sobre o seu papel diante do povo e do poder. Esse tema atravessa todo o romance, desde o momento em que o agonizante Virgílio, tomado pela dor e pela febre, percebe o sofrimento ainda maior dos "escravos silenciosos, acorrentados nos fundos fedorentos" do porto de Brindisi. Tomando consciência de que "o poeta não tem nenhum poder, não pode remediar mal algum", Virgílio começa a duvidar do valor de sua obra, capaz de embelezar e glorificar o mundo, mas não de descrevê-lo ou modificá-lo. Não é outra a preocupação de Broch, ao escapar do nazismo e acompanhar do exílio o colapso da cultura europeia e a violência contra os judeus (sua mãe morre no campo de concentração de Terezín).

Virgílio, imagem e personagem de Broch, se desespera: "Só a mentira produz a glória", e decide queimar os manuscritos da Eneida, obra já recitada e conhecida, ainda que parcialmente, por toda a corte de Augusto. Mas o grande poeta não pode morrer como um simples homem, pois seus versos devem garantir a imortalidade de seus contemporâneos. O imperador sabe disso, e corre para visitá-lo no leito de morte. O longo diálogo entre Virgílio e Octaviano, um dos pontos altos do livro, ecoa o lamento de Broch pelo destino da própria cultura alemã, dominada agora pelo Führer de um novo império (o Terceiro Reich). "Tua obra é Roma, e por isso é patrimônio do povo romano e do Estado romano, a cujo serviço estás, assim como nós todos devemos servi-lo", argumenta Augusto, tentando convencer Virgílio a salvar os manuscritos e dedicar a Eneida "à sua maior glória".

Sem forças, o poeta nota que "a Eneida é indigna, sem verdade, nada mais que bela", pois havia glorificado as armas e os poderosos, mesmo que "seu amor não se destinasse ao feroz Aquiles, e sim ao piedoso Eneias". O também feroz Augusto insiste, argumentando que a violência contra os fracos e os inimigos é o fundamento da própria civilização, já que "a liberdade genuína se encontra somente na ordem romana", pois "Estado e espírito são uma e a mesma coisa". Pressentindo o fim, e temendo que a epopeia pudesse ser terminada por outros, Virgílio acaba, como sabemos, cedendo a obra e a dedicatória ao imperador, pedindo em troca apenas a liberdade de seus escravos pessoais.

Na mística parte final, um longo "delírio ditirâmbico", acompanhamos a derradeira metamorfose de Virgílio, que se dissolve no princípio e fim de tudo, "diluído e anulado no Verbo, porém contido e conservado no Verbo". Confronto da beleza com a dura realidade histórica da opressão, a complexa literatura de Broch também se vale do verbo para denunciar os tempos em que a poesia não pode mais cantar a vida, os heróis e as flores, sem levar em conta os escravos no porão, as câmaras de gás e as injustiças do mundo.

JORGE DE ALMEIDA É DOUTOR EM FILOSOFIA E PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA E LITERATURA COMPARADA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.