Playboy

Se toda donzela tem um pai que é uma fera, ela também tem tios que acabam com romances

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 02h00

A morte de Hugh Hefner, inventor da revista Playboy aos 91 anos, governa essa crônica. 

Com 81 anos e sem ter inventado coisa alguma, eu mal acredito que fui tachado de “playboy de Icaraí” por um tio da minha namorada. Se toda donzela tem um pai que é uma fera, ela também conta com “tios” e “irmãos” fascistoides cujo gosto é liquidar seus romances. 

Antes da Playboy, o “playboy” era um “aproveitador” de moças inocentes. Um título absurdo porque, como os meninos de minha geração, eu fui muito mais virgem do que as moças supostamente virgens que namorei. Pelos valores da família brasileira de então, elas eram obrigadas (algumas a ferro e força...) a serem virgens, mas, mesmo quando não virgens, reproduziam um compulsivo pudor; ao passo que nós tínhamos que personificar escolados “comedores”. Para as meninas, a não virgindade era um escândalo, para nós, uma vergonha...

No início dos anos 1950, a revista Playboy começou a desmontar esses modelos, ao mesmo tempo em que deslocava os quadrinhos de Carlos Zéfiro e a revista Copacabana, que o Celso me emprestava com a advertência de que eu não a esquecesse no banheiro. 

Numa época em que “mulher nua” era sinônimo de raridade, todos tinham fotografias e revistas de “sacanagem” escondidas em gavetas que nossas mães conheciam muito bem. Muitas vezes, essas preciosidades promovedoras de intenso trabalho manual eram subtraídas por uma silenciosa e não prevista mão invisível. “Fui arrumar o guarda-roupa dos meninos e encontrei revistas de patifarias, um exagero...”, diziam as guardiãs de nossas castidades.

Os mais jovens podem esboçar um riso condescendente. Afinal, eles têm mais do que podem dar conta na internet. Mas os da minha geração lembram como era duro viver entre as desmedidas fantasias de comer a mãe do amigo e amar sem culpa as nossas namoradas. A mulher como uma impossibilidade figurava naquela paisagem. Vale recordar Manuel Bandeira: Um dia eu vi uma moça nuinha no banho/ Fiquei com o coração batendo/ Ela riu/ foi o meu primeiro alumbramento.

Minha geração foi de Zéfiro e revistas suecas – com aquelas mulheres esguias de púbis assustadoramente avermelhados – à suprema legitimidade da revista Playboy. Seu surgimento na sociedade brasileira foi além do escândalo e do sintoma de mudança. 

Se Freud foi o messias, Hugh Hefner foi aquele que liberou almas paralisadas pela culpa. Freud nos fez conhecer as afecções neuróticas; Hefner nos levou a imaginar gozosas formas de cura.

Com uma Playboy nas mãos e envoltos na paz de um azulejado banheiro, (único local da casa onde se podia ficar isolado) tornava-se possível examinar ao vivo e em cores o proibido do proibido – aquilo que só os mais velhos e os nossos pais conheciam – a mulher nua. Pecado dos pecados, beleza das belezas. 

A Playboy tirou o nu do armário, deslocando o seu eixo das hipocrisias do “nu artístico”, para emoldurá-lo na retórica do erotismo à americana. Agora, não víamos mais mulheres revelando uma nudez com traços de perversão, mas enxergávamos uma jovem com um corpo impecavelmente saudável – branca, loura com um perturbador riso angelical. Por meio da Playboy, a cultura americana nos apresentava o erotismo sem o ranço do escuso, sem as compulsões das neuroses vienenses e sem o peso da culpa imposta pelo credo judaico-cristão. Se o rei Davi fosse um leitor da Playboy, ele finalmente poderia ver o banho da bela Betsabá sem culpa nenhuma.

Hugh Hefner foi acusado de imoralidade e de machismo. Mas como um demiurgo vindo de dentro da terra americana – Illinois –, ele soube sublimar sua libido reprimida por pais metodistas (Hefner casou virgem) e pelos valores puritanos de sua cultura. Ele certamente sabia que sua vida e sua invenção eram panfletos contra o escondido e o encoberto. Sua contribuição não foi pelo escândalo ou crime, que reforçam o nosso lado reacionário em nome do revolucionarismo confortável e chique que – entrementes – vende “Cultura”. Muito pelo contrário, foi revelado pelo instrumento mais essencial da vida democrática: o jornalismo. 

Hefner mudou o lugar do feminino e, assim fazendo, mudou também o lugar do masculino que o tratava como objeto. Ironicamente, a revista destinada a ser um manual de donjuanismo moderno acabou sendo uma importante semente do feminismo e do antirracismo segregacionista. O primeiro movimento virou o jogo dos gêneros e das sexualidades; o segundo tem transtornado as congeladas relações entre negros e brancos. Se boas intenções não fazem boa literatura, vícios podem virar virtudes. 

Em tempo: Hefner chegou a morar com 7 mulheres ao mesmo tempo, depois morou com 4, com 3 e finalmente morreu monogamicamente, conforme havia começado. 

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