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Pinacoteca traz retrato do Brasil, por Hércules Florence

Pioneiro da fotografia, de origem francesa, retratou o País como desenhista da Expedição Langsdorff

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Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo ,

12 Dezembro 2009 | 06h00

Aquarela mostra fazenda de café vista ao longe; nota-se a atenção de Hércules Florence aos detalhes. Foto: Pinacoteca do Estado/Divulgação

 

SÃO PAULO - Há pessoas, como Hércules Florence (1804-1879), que nascem para ter suas invenções exploradas por outros. Exemplo recente dessa apropriação aparece na obra do romancista contemporâneo francês Stéphane Audeguy. Em seu livro A Teoria das Nuvens (Editora Record), Audeguy fala de todo mundo que estudou o comportamento das nuvens, do meteorologista inglês Luke Howard (1772-1864), que lhes inventou os nomes, a Ralph Abercromby (1843-1897), que rodou o mundo para ver se elas eram de fato iguais em toda a parte. Só não fala de Florence. O mesmo vale para sua principal invenção, a fotografia. Esse francês, que cunhou o nome e inventou o processo de revelação três anos antes de Daguerre, morreu um século antes de o fotógrafo, arquiteto e historiador brasileiro Boris Kossoy apresentar, nos EUA, as evidências de sua invenção, em 1976. Hoje, porém, se corrige uma injustiça. É inaugurada na Pinacoteca do Estado a exposição Hércules Florence e o Brasil, que reúne 180 obras, entre aquarelas, desenhos e manuscritos desse artista e inventor que acompanhou a expedição Langsdorff.

 

A mostra, com curadoria de Leila Florence, bisneta do artista, é a mais completa entre as que prestaram homenagens a Florence, habilidoso desenhista a quem o barão alemão Georg Heinrich von Langsdorff, pago pelo governo imperial russo, contratou para acompanhá-lo em suas andanças pelo Brasil, entre 1825 e 1829. O talento artístico e seus conhecimentos de cartografia o levaram a uma viagem de 13 mil quilômetros, partindo de São Paulo, então uma vila de 15 mil habitantes, e chegando à Amazônia. Florence dividiu com outro desenhista, Adrien Taunay, que morreu afogado durante a expedição, a tarefa de registrar a fauna, a flora e os tipos locais. Muitas dessas imagens estão na mostra da Pinacoteca e num livro que a curadora Leila Florence vai publicar no próximo ano, justamente dedicado ao estudo das nuvens do bisavô, O Teatro Pitoresco Celeste de Hércules Florence, com textos do crítico Jorge Coli, do psicanalista Guilherme Massara Rocha e do meteorologista Rubens Junqueira Villela.

 

Aquarela reproduz um canavial em 1848, época em que Florence desenvolve um projeto precursor da taquigrafia. O desenho mostra as condições de vida dos escravos negros brasileiros, que provocaram a indignação do artista e inventor. Foto: Pinacoteca do Estado/Divulgação

 

As aquarelas que mostram as nuvens de todos os gêneros, de altos-cúmulos (em forma de carneirinhos) a nimbos (aquelas carregadas, de chuvas), formam a série mais espetacular de uma exposição que tem desde paisagens de fazendas de café a retratos de políticos liberais como o padre Diogo Antonio Feijó - Florence era simpatizante ideológico do partido -, passando pelo registro da vida cotidiana e costumes de diversas tribos indígenas (apiacás, bororos, guatós). O que torna o estudo da paisagem celeste por Florence ainda mais interessante é que não se trata apenas de uma apropriação artística do atlas celeste, como o fez o inglês Turner. Florence, antes de tudo, encarou a arte como uma forma de ciência para ajudar a humanidade. E enfrentou outras profissões - de dono de uma loja de tecidos a tipógrafo, começando por caixeiro - para sustentar seus 20 filhos.

 

A curadora Leila Florence confirma a suspeita de que o bisavô morreu ressentido por não ser reconhecido como inventor da fotografia e da poligrafia - impressão simultânea de cores, da qual a exposição reúne exemplares. Em 1834, numa das páginas de seu diário, ele conta como usaria o nitrato de prata para imprimir uma imagem sobre tecido, experiência realizada graças à observação de como o brim descoloria à luz do sol. No mesmo dia (15 de março de 1834), ele deixa claro que as coisas teriam sido diferentes se tivesse ficado em Paris. "Lá, possivelmente, encontraria pessoas que me dariam ouvidos, me compreenderiam, me protegeriam."

 

Essa sensação de isolamento de um homem que passou 50 dos seus 75 anos no Brasil é reforçada em outras passagens do diário. Generoso, ele revela como os fabricantes e atacadistas de tecidos poderiam utilizar sua descoberta, o polígrafo, como maneira de imprimir amostras de rendas, tule bordado e musselinas. Leila Florence lembra que o bisavô foi pioneiro até na propaganda. "Ele criou alguns anúncios usando a técnica do polígrafo", diz, mostrando desenhos que seriam utilizados para os mais variados fins, entre eles na imprensa - ele fundou o primeiro jornal de Campinas - e em notas bancárias para evitar falsificações.

 

Leila chama a atenção para as aquarelas que retratam povos indígenas como os guatós, hoje em extinção (restam apenas 500), o desmatamento e as queimadas, que Florence considerava desastrosas já naquela época. Observador da natureza, ele estudou os sons emitidos pelos animais durante a expedição Langsdorff e registrou a vida dos escravos na zona canavieira, escandalizando-se com os maus tratos a que eram submetidos. Há pelo menos uma aquarela que trata do tema na mostra. Ela revela um artista sensível e atento ao detalhe.

 

Hércules Florence e o Brasil. Pinacoteca. Praça da Luz, 2, 3324-1000. 10 h/18 h (fecha 2.ª). R$ 6 (sáb., grátis). Até 14/3. Abertura hoje, 11 h, para convidados

 

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