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Pesquisadoras acham pigmento feito de besouros em quadro de Renoir

Kenneth Chang - The New York Times

20 Maio 2014 | 03h 00

Tom avermelhado foi encontrado sob a moldura nas bordas de ‘Madame León Clapisson’

As curadoras do Instituto de arte de Chicago depararam-se com um mistério ao analisar o quadro Madame Léon Clapisson, pintado em 1883 pelo impressionista francês Pierre-Auguste Renoir. Retirando o retrato da moldura para um estudo detalhado, elas descobriram que as bordas que ficaram ocultas atrás da moldura eram consideravelmente mais vívidas. Trataram então de desvendar o mistério do pigmento desaparecido "Estas partes ficaram protegidas da luz, por isso pudemos ver a cor original desta área que não desbotou", disse Francesca Casadio, a cientista que chefia a equipe de curadores do museu. "É uma coisa impressionante. É um tipo de tinta de uma intensa cor vermelho-púrpura".

Embora o tom brilhante das bordas tivesse sido observado há cerca de 15 anos, na época, o museu não dispunha de recursos científicos para investigar. Mas quatro anos atrás, o projeto de criação de um catálogo digital dos quadros de Renoir do acervo do museu ofereceu a oportunidade para realizar uma série de testes científicos. Kelly Keegan, que trabalha no projeto, disse que uma rápida verificação ao microscópio revelou imediatamente que a mudança da cor não foi uma revisão decidida pelo próprio Renoir ou causada por uma limpeza imprudente. "É evidente que se trata da pintura original", ela disse. "Na superfície podemos ver partículas que agora são como translúcidas". As bordas que não desbotaram não apresentavam estas partículas translúcidas que evidentemente continham moléculas de pigmentos que acabaram se dissolvendo, perdendo a cor.

Os curadores dos museus de todo o mundo costumam banhar suas pinturas com luz de diferentes comprimentos de onda - infravermelha, ultravioleta raios -X - para ver o que pode estar escondido na superfície ou em baixo dela. Mas tais técnicas não conseguem identificar pigmentos orgânicos, extraídos de plantas e de insetos, muito usados pelos impressionistas. Por isso, a dra. Casadio e Federica Pozzi, ambas restauradoras, usaram uma técnica a laser chamada espectroscopia Raman.

Usando um minúsculo fragmento vermelho raspado da borda da pintura, as restauradoras identificaram o corante: carmim extraído da cochonilha do mesmo nome, feito com insetos esmagados e moídos que vivem nos cáctus no México e na América do Sul. Evidentemente, a impressionante cor vermelha fascinou Renoir. Ocorre, entretanto, que o corante não dura. Os próprios catálogos de tintas da época notavam que a cor não era estável quando exposta à luz. "Acho que os artistas não se deram conta de que as cores poderiam desaparecer por completo", disse a dra. Casadio.

A cochonilha moída ainda é usada atualmente, mas como corante natural de alimentos, principalmente em balas, em que a longevidade não é imprescindível. A Starbucks costumava acrescentá-la a algumas das suas bebidas, mas parou de fazê-lo em 2012, depois das reclamações dos vegetarianos.

Nem se cogita tentar restaurar o retrato recuperando suas tonalidades originais, entretanto, usando determinado software, Keegan conseguiu criar uma versão digital de como era provavelmente a pintura em 1883. O frio fundo de tons cinzentos, azuis e verdes era, ao contrário, composto de uma variedade de vermelhos e púrpuras muito quentes - "em certo sentido, mais ousados, mais arriscados", disse Gloria Groom, a curadora sênior do museu. "É muito estranho. Pensamos que conhecemos um artista, e então a ciência nos revela coisas diferentes a seu respeito, e nós ficamos com a impressão de que a nova descoberta não se coaduna com a ideia que tínhamos dele’ ".

Segundo Kelly Keegan, embora a versão digital não tenha alterado as cores do rosto de Madame Clapisson, olhando a pintura percebe-se que ela agora é diferente. "Ela ressalta todo o rosado de sua pele, e faz com que pareça mais jovem". Recentemente, no Instituto de Artes foi realizada uma mostra em que é possível comparar o quadro como o vemos atualmente com a reprodução digital em que ele aparece como Renoir o pintou.

Madame Léon Clapisson não é a única pintura cuja cor mudou com o passar dos anos. Há pouco tempo, os curadores descobriram um vermelho mais profundo, mais intenso, na manga de uma das meninas do quadro Mulher polinésia com crianças, de Paul Gauguin - novamente na parte da tela que fora protegida pela moldura. "Podemos imaginar que se trata de um fenômeno muito semelhante de esmaecimento da cor", segundo a dra. Pozzi.

A tinta amarelo zinco usada na obra mais famosa do Instituto de Arte, Uma tarde de domingo na Ilha da Grande Jatte, de George Seurat, também se revelou instável, passando da cor limão brilhante para um ocre desmaiado. Nesse caso, um crítico de arte notou a mudança no espaço de alguns anos, lamentando que um pouco de sua cor tivesse sumido.

A dra. Groom pesquisou em busca de queixas semelhantes a respeito de Madame Clapisson, que Renoir expôs várias vezes. Não encontrou nenhuma. "Ao que tudo indica, se o quadro tivesse desbotado rapidamente, alguém teria notado: ‘Eu o vi há três anos, e não era bem assim’ ", observou. Por outro lado, o Instituto de Arte tem fotografias coloridas do quadro datadas dos anos 30 que o mostram muito parecido com o que vemos hoje.

Talvez a dra. Groom tenha encontrado um novo quebra-cabeças. Um ano depois de concluir o retrato da Sra. Clapisson, Renoir pintou o Retrato de Paul Haviland, atualmente no Museu de Arte Nelson-Atkins de Kansas City, Missouri. Este também tinha um fundo avermelhado semelhante e hoje continua dessa cor, pelo menos perto da sua parte inferior. Acaso Renoir teria mudado de tinta? Ou o Haviland foi protegido de algum modo? "Acho que meu próximo telefonema será para o Nelkson-Atkins", disse a curadora. "Eles deveriam definitivamente investigar os pigmentos".

O Museu Nelson-Atkins ainda não o fez, mas pretende realizar um exame completo da obra para a elaboração de um catálogo acadêmico sobre os quadros franceses do seu acervo. Até lá, "não se sabe ao certo se as cores do quadro terão mudado com o tempo ou quanto terão mudado", afirmou Mary Schafer, uma curadora do museu, "mas esperamos contribuir para esta discussão sobre os pigmentos fujões e a paleta de Renoir".

Tradução de Anna Capovilla

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