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Pesquisador francês Frédéric Martel encerra 8ª Fliporto

AE - Agência Estado

19 Novembro 2012 | 10h 25

A China, como dizem os italianos, é "vicina", ou seja, está próxima, mas isso não é necessariamente ruim, garante o produtor e ensaísta francês Frédéric Martel, da France Culture, participante da 8.ª Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), encerrada neste domingo, em Olinda. Martel falou sobre cultura de massa em escala mundial. É autor do elogiado livro "Mainstream: A Guerra Global das Mídias e da Cultura", lançado pela Civilização Brasileira. Martel é também dos grandes estudiosos do fenômeno soft power, que se opõe ao hard power (de características militarescas) por defender não a imposição, mas a transmissão de uma cultura por meios suaves. É o que os americanos fazem na China, de algum modo, ignorando a pirataria que os chineses praticam para, pacientemente, disseminar hábitos e a cultura americana entre os asiáticos, nem que seja por meio de DVDs piratas ou filmes baixados pela internet de modo ilegal.

Antes, ex-presidentes americanos apoiavam ditadores (em especial da América Latina) em troca de vantagens para seus produtos culturais, como filmes. O lobby do cinema hollywoodiano, ainda hegemônico no mundo, era tão poderoso que cada produção lançada representava uma operação de guerra envolvendo lobistas, relações públicas e um staff incontável de pessoas recrutadas para a tarefa. Com a criação das salas multiplex, essa tarefa ficou mais fácil. Os americanos não temem mais a concorrência, mesmo em países cuja legislação protecionista prevê cota de exibição de produções nacionais.

"A reserva de mercado não é um grande negócio para países emergentes", garante Martel. Melhor que exigir cotas de exibição, sugere o produtor, é imitar o exemplo francês, que trocou as pequenas salas pelos multiplex e exigiu 11% do imposto arrecadado em cada ingresso vendido, destinados a bancar a produção francesa. Os chineses, afinal, começam a embarcar na "onda multiplex", revela o francês, construindo três salas de exibição a cada dia. Aquele que era o mais cleptomaníaco entre os países asiáticos, logo terá de prestar contas aos EUA, considerando o êxito de filmes como Avatar na China. "Os EUA só não conseguem penetrar na Índia, entre os emergentes, porque a produção de Bollywood (a Hollywood dos indianos) é gigantesca."

Martel, em seu livro, visitou os grandes estúdios americanos e também os independentes, verificando que os últimos não são mais indies. Produtoras como a Focus e a Miramax agora estão submetidas às majors, que se parecem cada vez mais com bancos, compara o produtor. Isso não significa que o cinema autoral vá morrer, observa. "Nos multiplex, ele sobrevive ao lado dos blockbusters, educando visualmente um jovem que, antes, como eu, para ver um filme de Bresson ou Godard, tinha de ir a pequenas salas em lugares distantes."

Num sistema multinacional, acrescenta Martel, grandes marcas não têm controle sobre o que seus subordinados estão produzindo do outro lado do mundo, lembrando que a Sony japonesa não possuía nem mesmo conhecimento da produção da trilogia do Homem Aranha, que se revelou lucrativa. Poderia ser uma produção modesta, como "O Segredo de Brokeback Mountain", da Focus, que faturou prêmios e dinheiro.

O soft power pode até mesmo quebrar códigos de censura, garante Martel. Ele esteve recentemente com dirigentes da Rede Globo e garante que um tabu nas telenovelas, o beijo entre casais gays, vai ser quebrado em breve. "O apoio que Obama deu ao casamento gay repercutiu no mundo todo e isso é o que chamo de ''poder suave'', um discurso progressista que ajuda a mudar a cultura em países avessos a conquistas das minorias." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.