Paulo Emílio, pelos que o amam tanto

Pode até ser provocação, ou é, mas a jornalista Maria do Rosário Caetano, organizadora dos ensaios que compõem o volume Paulo Emílio Salles Gomes - O Homem Que Amava o Cinema e Nós Que o Amávamos Tanto, escolheu uma imagem emblemática para a capa do livro que será lançado hoje na Mostra. É uma publicação do Festival de Brasília, por meio da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Paulo Emílio cruza a foice e o martelo, compondo o emblema do comunismo. A foto de 1935 pertence ao acervo da Cinemateca Brasileira, da qual ele foi um dos fundadores.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2012 | 03h12

Ao escolher a foto, Maria do Rosário não deixa de fazer a ponte entre o livro sobre Paulo Emílio e o seu dicionário de cineastas latino-americanos, dedicado à mítica figura do Che. Dois símbolos de uma paixão revolucionária hoje um tanto em desuso, mas da qual o esquerdismo intransigente da autora não abre mão. O que é ser esquerdista em 2012? É não renegar os ideais da juventude, o desejo de criar um mundo melhor e, no cinema, fortalecer o que tem a nossa cara, o brasileiro. Um único senão - o título é sob medida para se relacionar com um filme que Maria do Rosário, como cinéfila, admira, Nós Que nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola. Mas o teor da publicação não está no passado. Paulo Emílio amava o cinema, mas o livro é uma coletânea dos que ainda o amam tanto.

Na introdução, a autora fala do desafio que foi organizar, em dois meses, um livro em homenagem a um dos criadores do Festival de Brasília - que comemorou 45 anos em setembro. O terceiro e o quatro capítulo são essenciais. Lygia Fagundes Telles traça um retrato do marido, ela que militou com ele, na arte e na vida, e o conheceu como ninguém. Na sequência, Antônio Cândido define Paulo Emílio como um homem de relevo. O quinto capítulo compõe-se de artigos, o sétimo, de depoimentos. Entre ambos, o sexto contém duas entrevistas, que Paulo Emílio deu a Carlos Reichenbach, Eder Mazini e Inácio Araújo para a revista Cinegrafia, em 1974, e para Cláudio Kahns, na revista Cadernos de Opinião, em 1978.

Os depoimentos são de críticos, diretores, amigos, colaboradores. Cada um tem o 'seu' Paulo Emílio. A crítica gaúcha Ivonete Pinto conta como se apaixonou por um morto. Paulo Emílio virou sinônimo de defesa do cinema brasileiro. Deve-se a ele uma frase provocativa como a foto da capa - "O melhor filme estrangeiro não vale o pior filme brasileiro." Paulo Emílio foi guerreiro em defesa do cinema do País. O livro o resgata como exemplo de lucidez, e resistência.

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