Paroquialismo

O paroquialismo no Primeiro Mundo é fatalmente uma regressão reacionária causada pela invasão dos refugiados

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2017 | 02h00

Enquanto o capital se internacionaliza, as pessoas se retribalizam. Estaria havendo uma reação da paróquia contra o mundo. Poucos reacionários se definiriam como fascistas, ou “istas” de qualquer espécie. Como na velha piada: eu não sou racista, só tenho pavor a negro, judeu, árabe ou a qualquer outro. Outro. O racismo é uma filosofia, o pavor ao outro é um atavismo, um raciocínio intestinal. A paróquia acha que os empregos do lugar devem ser para os do lugar, e que quem não teve a sorte de nascer num país desenvolvido deve se resignar a ficar na sua tribo. Uma lógica simples, uma lógica de paróquia. Universalismo, direitos humanos, solidariedade, etc. são frases bonitas, mas são frases mundanas. A paróquia fala outra língua.

 

Culpem o meu coração mole, mas senti pena do George W. Bush quando derrubaram as torres do World Trade Center, há 16 anos. Bush fazia um confortável governo paroquial, enriquecendo os seus amigos e desdenhando do resto do mundo. Não estava lá para outra coisa. Apesar da economia incerta, podia contar com oito tranquilos anos na gerência da Fortaleza América, com frequentes viagens ao Texas. Não precisava nem de uma política externa, quanto mais de uma política externa inteligente. De um dia 11 de setembro para o outro, foi sugado para o mundo. Teve que trocar os simplismos paroquiais por nuance, sofisticação, a linguagem antiparoquial da diplomacia responsável. Só conseguiu a incoerência. Hoje, os Estados Unidos são presididos por Donald Trump, a paróquia retrógrada em pessoa.

O paroquialismo no Primeiro Mundo é fatalmente uma regressão reacionária causada pela invasão dos refugiados (e no mundo muçulmano pode ser um abismo obscurantista). No nosso mundo, o paroquialismo tem outro sentido, e portanto outra cara. Aqui, recuperar um sentimento de nação é recuperar o paroquial no melhor sentido, da valorização do próximo e da sua humanidade próxima, em oposição não a um Outro ameaçador, mas ao universalismo abstrato do capital financeiro, o pior do mundo, e a uma elite sem consciência, além da classe política que ela merece. 

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