Para Schwarz, 'Dom Casmurro' é exemplo de lição de tolerância

Crítico abriu a sexta edição da Flip com uma palestra sobre Machado de Assis, escritor homenageado deste ano

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

03 Julho 2008 | 18h16

O romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, é um exemplo de lição de tolerância. Essa foi uma das conclusões apresentadas pelo crítico Roberto Schwarz que, na noite de quarta-feira, abriu a sexta edição da Flip com uma palestra sobre Assis, o escritor homenageado deste ano.   Diante de uma platéia que praticamente lotou a Tenda dos Autores (entre os estrangeiros, estavam presentes o inglês Tom Stoppard, o colombiano Fernando Vallejo e o holandês Cees Nooteboom, que foi embora depois de 15 minutos de iniciada a palestra), Schwarz leu durante quase uma hora uma minuciosa, mas cristalina pensata sobre a obra do Bruxo do Cosme Velho. "Em Dom Casmurro, ele oferece uma lição de tolerância ao mostrar a superação de uma birra entre dois segmentos que então (fim do século 19) viviam no Rio de Janeiro: o centro e o bairro."   Para o crítico, a genialidade do texto machadiano está no tom dissimulado com que apresenta a verdadeira face da sociedade da época, patriarcal e conservadora. "É por isso que Capitu, a mulher acusada de ter traído o marido, Bentinho, com seu melhor amigo, Escobar, ter um destino trágico", disse Schwarz. "Ela, apesar de vir da classe mais humilde, é uma mulher dotada de razão, o que entra em confronto com Bentinho, representante da classe patriarcal que não aceita tal insulto."   Segundo Schwarz, a obra foi, durante anos, analisada de forma a proteger a figura de Bentinho, "uma alma boa e cândida", em detrimento de Capitu, "que tinha a perfídia nos olhos". "Tal análise é típica de uma época em que a mulher não podia duvidar do que dizia o marido", afirmou o crítico, que utilizou uma régua para ler seu ensaio. "Foi apenas nos anos 60 que uma americana, Helen Caldwell, apontou a falta de confiabilidade do narrador Bentinho, reforçando sua posição patriarcal."   Também o Golpe de 64 , que preservou a propriedade privada, reforçou idéias esquerdistas que apontavam para o conservadorismo de Bentinho. A partir daí, a obra de Machado ganhou novas leituras, culminando com a de John Gladson, que lembrou a origem de dominadora da família de Bentinho, justificando seu ponto de vista. Ao final da palestra, Schwarz foi aplaudido de pé.

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