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MARIA FERNANDA RODRIGUES - O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2012 | 02h 07

Tão fácil quanto despertar o interesse de uma criança por arte é destruir o prazer dessa descoberta. Para que pais, avós e professores não percam seus rebanhos pelo caminho, a francesa Françoise Barbe-Gall lança agora no Brasil, pela WMF Martins Fontes, Como Falar de Arte com as Crianças. Uma das lições iniciais, e mais importante, é: não caia na tentação de achar que um dia chuvoso é perfeito para visitar um museu.

"É uma noção que precisa ser derrubada: ela supõe que nos resignamos a entrar nesse tipo de lugar quando todas as outras possibilidades de 'passar o tempo' tiverem sido esgotadas", escreve a autora a partir de suas obervações diárias no Museu do Louvre, em Paris, onde foi professora até este ano. Hoje ela se dedica à sua associação Coreta (Comment Regarder Un Tableau), a palestras para professores e à produção de outros guias deste tipo, para todas as idades. Entre os que já publicou estão ainda Como Ver os Impressionistas, Como Falar com Crianças Sobre Arte Moderna e Como Entender Uma Pintura.

O volume que chega agora ao País é destinado a adultos que querem falar sobre pintura com as crianças e traz informações práticas sobre obras, artistas e sobre como abordar determinadas questões com crianças entre 5 e 13 anos - ela as divide em três grupos. Conta, por exemplo, que as que têm entre 5 e 7 anos criam suas próprias histórias para o que veem na tela e se divertem imitando os personagens. Já as de 8 a 10 se encantam com as diferentes civilizações e aqueles entre 11 e 13 querem saber sobre a vida dos artistas. A autora mostra como tirar proveito dessa curiosidade.

Françoise escolheu a idade de 5 anos para começar porque é quando o vocabulário se amplia. Porém, não é preciso esperar até lá. "Antes dessa idade, é importante cultivar a familiaridade com as imagens. Se os pais acostumarem as crianças a verem reproduções de obras no ambiente familiar, a arte se tornará uma coisa normal", conta a autora ao Sabático.

Mas a arte não está em todas as casas e Françoise não vê como problema que pais deleguem a educação artística de seus filhos às escolas. Na verdade, acha até melhor. "Se não gostam, não deveriam abordar o tema. O tédio é contagiante", brinca. Eles terão outras oportunidades de serem sensibilizados, mesmo que achem, como grande parte das crianças acha, chato visitar um museu.

O espaço é enorme, mas não se pode correr lá. Tem de falar baixo, não pode encostar em nada, não pode comer. As visitas são longas e por todo o tempo eles têm de se comportar. Dependendo do museu, haverá muita imagem religiosa, ou então, muita escultura. E se a criança já demonstra antipatia por determinado tipo de obra, fica tudo mais difícil - mas não impossível, garante a autora.

A teoria na prática. Já na entrada da primeira sala do Museu de Arte de São Paulo, Julio Charleaux diz que aquele museu é um lugar chato. Ele, no entanto, não fala isso porque preferia estar jogando bola ou videogame. Aos 9 anos, já conhece suas preferências: "Não gosto muito de pintura de pincel, só de lápis grafite." Ele vai se desarmando durante a visita e, bom desenhista, começa a copiar a tela A Canoa Sobre o Epte (1890), de Claude Monet. Depois, dá uma volta e logo se encanta com As Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch, datada de cerca de 1500. Percebendo que o quadro tinha mais ou menos a idade do Brasil, se assombra: "E está vivo até agora? Como?" É nesse momento que aprende lições de conservação e ouve que é para que o quadro permaneça vivo por muitos outros séculos que é proibido fotografá-lo usando flash.

Julio costuma ir a museus por influência dos pais. Em Santiago, no Chile, gostou muito do Interativo Mirador - pudera, lá as crianças aprendem na prática o que veem na escola. Por outro lado, recentemente ele foi à exposição do cartunista Angeli, no Itaú Cultural, e saiu frustrado porque não o deixaram entrar em determinada sala, proibida para menores de 16 anos. "Não deixaram porque tinha desenho de mulher pelada, mas eu sempre vejo isso em quadro. Olha, tem mulher pelada ali", esbraveja apontando para Banhista Enxugando o Braço Direito (1912), de Renoir.

A questão da nudez é abordada no livro, e a autora conta que ela causará constrangimento em meninos e meninas nos seus 11, 12 e 13 anos. Para ela, evitar o tema é um absurdo e a sugestão para deixá-los mais confortáveis é que se apresentem os sentidos da obra - a relação simbólica com a verdade, as pesquisas de anatomia, etc. Françoise antecipa, também, questões e comentários que os três grupos de idade escolhidos por ela podem fazer. No fim da obra, há reproduções de 30 quadros com esses comentários e as possíveis respostas (veja dois exemplos abaixo). Para ilustrar a seção, escolheu artistas de períodos e nacionalidades diversas: Bosch, Ticiano, Botticelli, Vermeer, Goya, Caravaggio, Van Gogh, Monet, Chagall, Mondrian...

Algumas das telas selecionadas são famosas - Mona Lisa está lá, claro -, mas o critério da autora foi mostrar quadros ricos que pudessem abrir o caminho para outras imagens. Assim, quem não pode ir ao MoMA, de Nova York, ver a tela O Aniversário, de Chagall, que está no livro, tem a chance de conhecer o trabalho do artista no Masp, onde está exposto O Vendedor de Gado. Além disso, as respostas e abordagens sugeridas pela autora são também facilmente transportadas para outras pinturas, de outros autores.

Há ainda informações sobre temas frequentes na arte, como mitologia, religião, alegoria, história e paisagem - com indicações de livros sobre tais assuntos. E muitas dicas práticas. Por exemplo, uma vez no museu, faça a visita no ritmo da criança e não force um tour completo. Se a fila para entrar estiver longa, passe na cafeteria antes de começar o passeio para quebrar o tédio da espera. Esqueça frases do tipo "Você vai ver, o quadro é muito bonito". Transforme a ida ao museu num programa e na saída, passe numa lanchonete. Deixe que a criança descubra os quadros sozinha, se encante por eles. Segundo a autora, é possível que ela eleja o seu "queridinho" e queira sempre voltar a vê-lo. Não tem problema. A cada vez que o quadro for visto, um novo detalhe chamará a atenção. E mais: uma hora a fixação por ele será transferida para outra obra.

Na volta para casa, o ideal é manter o assunto vivo, mostrando, em livros, outros trabalhos daqueles artistas, contando a história deles, ouvindo músicas da época da pintura. Para quem não tem museu à mão, os livros de arte (no box ao lado, algumas indicações específicas para crianças) ajudam. "O único inconveniente é que podem dar a impressão de que a arte está reservada apenas a pessoas dotadas de grande conhecimento", explica.

Visita com os pais ou com a escola a museus, livros de arte espalhados pela casa. Apesar de todo o esforço, pode ser que a criança não goste mesmo de pintura e para a autora isso é ok. "Todas as pessoas podem ser tocadas pela arte; a questão é encontrar a que consegue tocá-las. Algumas são sensíveis à imagem, outras à música, ao teatro... Isso não acontece sempre na mesma idade para todos. É por esse motivo que é essencial abrir as portas e mostrar que não se trata de obrigação, e sim de prazer."

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