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Paquera não presencial

Humberto Werneck

Vinha eu da Bulgária, de carro, num final de tarde de verão (sempre quis escrever um texto começando assim), quando entrei em Niš. Faz tempo. A cidade fazia parte de um país que, retalhado por nacionalismos, já nem existe. A Iugoslávia acabou, mas a cidade continua lá, com seu circunflexo invertido, agora na condição de terceira maior da Sérvia, atrás de Belgrado, a capital, e Novi Sad.

Guardei de Niš uma lembrança apenas: a da moçada a girar em torno de uma praça, ciranda galante muito parecida com a que se via nas pracinhas interioranas do Brasil de então. Sem demérito de nossas formosuras nacionais, a diferença estava na beleza, unânime e quase escandalosa, da juventude eslava. No mais, encenava-se ali o mesmo ritual de sedução amorosa cujo nome, pelo menos, parece haver desaparecido por aqui: o footing.

Cabe, por via das dúvidas, explicar o que era isso. Bandos de moças e rapazes a desfilar na praça, eles rodando num sentido, elas no outro, todos ostensivamente semostradores, numa frenética troca de olhares, ao sabor dos hormônios que, nas duas mãos –, borbulhavam. Havia também um footing em que os moços se plantavam na calçada, expostos à vitrine semovente das moças que passavam.

No tempo de meus pais, final da década de 1930, essa manobra a que devo minha existência tinha lugar numa calçada da alameda central da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, sob um renque de palmeiras imperiais. Quando se rascunhava uma hipótese de namoro, tudo rigorosamente casto e bem-comportado, o par se transferia para a calçada dos acasalados. Na minha vez, o footing rolava na avenida Afonso Pena, em frente à loja Sloper, o que havia de “chique” na cidade. 

E eis que na remota Iugoslávia, anos depois, dou de cara com algo muito parecido. Por pouco não entrei na roda. Ainda não sabia que a contribuição do idioma sérvio à língua portuguesa não vai além de duas palavras, de resto imprestáveis para os trâmites da paquera, a não ser que o que se tenha para oferecer seja sangue bem condimentado: vampiro e páprica. Também não sabia do risco de abordar alguém e levar na cara um “kako cu”, equivalente sérvio de “como vai”.

Quatro décadas passadas, me pergunto se sobrevive em Niš o ritual que me encantou no verão de 1974, ou se, também ali, a paquera já não depende de que as partes envolvidas estejam frente a frente. Aqui, o arsenal da caça incorporou modalidade nova, na qual a coisa anda sem andar: todo mundo em pé, mas parado. Repare no amontoado de juvenilidades auriverdes (assim dizia o Mário de Andrade) na calçada do boteco e me diga se não temos hoje uma stand up generation. De pé, para melhor arrastar uma asa.

Longe de ser especialista na matéria, constato que a paquera presencial já não é caminho obrigatório para os seres desejantes: ao menos parte do processo pode transcorrer como telepaquera, de celular a celular, de computador a computador, com recurso farto a rsrsrs, kkk e emoticons, num ebuliente coquetel de bytes e de hormônios. Parte do processo – quando não o processo inteiro, pois para muitos parece ser suficiente o encaminhamento virtual de impulsos menos virtuosos, sem precisão de vis-à-vis sequer no que se perseguia como gran finale. Para quem está disposto a pôr mãos à obra, sexo seguro é cada um na sua casa. Vírus, só os de computador. O melhor de tudo, disse Woody Allen, é depois dormir abraçadinho.

Nada contra as novas tecnologias a serviço das canseiras e delícias da conquista, nem mesmo o fast-food viabilizado por aplicativos que, ao mapearem disponibilidades carnais específicas nas imediações, dão corda a um eficiente delivery sexual. Nada contra, muito menos, a criatividade pura e simples, sem tecnologia alguma – como a de um insuspeitado empreendedor cubano com quem, em plena economia socialista, me deparei numa visita a Havana.

Por duas vezes me aconteceu de pegar o mesmo táxi, um daqueles carrões americanos da Cuba pré-revolucionária, sem taxímetro, mas autorizados a fazer corridas. Na primeira, metade do vasto banco traseiro era ocupada por duas garotas de pernas à mostra e melocotones mal contidos em seus receptáculos. Na segunda, as mesmíssimas coxas e tetas – comprovação insofismável de uma joint venture que assegurava renda para as donas das prendas e para o sócio motorista, um senhorzinho com jeito de Buena Vista Social Club. Não estaria naquele remendado Oldsmobile a pioneira manifestação de modalidade negocial cujo nome poderia ser Uber & Úberes?

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