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Paixão de narrar François Ozon

Diretor francês fala do retrato da juventude em 'Dentro de Casa', seu sucesso que estreia nesta sexta-feira. 'Não faço filmes para ser visto por meus amigos ou por dois espectadores num cineminha de arte-ensaio do Quartier Latin'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 Março 2013 | 02h10

Nenhum dos dois representa exatamente aquilo que o cinéfilo definiria como o cinema francês mais intelectualizado - os chamados filmes-cabeça. Em entrevistas realizadas por telefone, François Ozon e Jean Becker - cujos novos filmes estreiam hoje, Dentro de Casa e Sejam Muito Bem-vindos - reafirmam, o primeiro seu compromisso com o público e o segundo, com a emoção. "Não faço filmes para ser visto por meus amigos ou por dois espectadores num cineminha de arte-ensaio do Quartier Latin", provoca Ozon. Mas até Ozon se surpreende com o inesperado sucesso de Dentro de Casa, Dans la Maison. O filme fez 1,2 milhão de espectadores na França.

Em sua carreira, ele tem filmes que ultrapassaram a barreira do milhão de espectadores (Oito Mulheres) e outros que quase chegaram lá (Potiche - A Esposa Troféu). Sua média situa-se, por baixo, em torno de 300 mil espectadores, e como ele não faz filmes caros, todo mundo fica satisfeito. Ele faz os filmes que quer, os produtores recuperam o investimento. Ozon faz andar a roda do cinema francês. Ele ri da observação do repórter, mas observa. "É verdade, para mim o importante é a continuidade do trabalho. Gosto de contar histórias, de trabalhar com atores, divirto-me com o ambiente no set. Conseguir fazer um filme por ano, nas condições atuais, é quase uma façanha", comenta ainda.

Dentro de Casa pega carona no que não deixa de ser um fenômeno contemporâneo - o sucesso de reality shows tipo o Big Brother Brasil. Ozon conta a história de um garoto que invade a casa do vizinho para observar o espetáculo da vida alheia. O formato é de thriller - "Não vejo problema nenhum em trabalhar com gêneros. Se a gente consegue reinventar os códigos, é válido", ele diz.

No filme, o garoto registra suas observações em forma de ficção. Há um professor de literatura que se interessa por sua criatividade - Fabrice Luchini. É casado (com Kristin Scott Thomas). O garoto vira objeto de desejo. "Não tenho problema nenhum em abordar a homossexualidade, mas o desafio, para mim, sempre foi fugir ao gueto", afirma o diretor.

O filme é uma adaptação da peça El Chico de la Última Fila, do espanhol Juan Mayorga. "Embora misture gêneros, é uma crônica de costumes que aposta no lúdico. Se está fazendo todo esse sucesso, é por ser uma espécie de retrato da juventude atual. Isso pesou mais do que sua relação indireta com a histeria em torno dos programas de TV que devassam a vida privada." A história, até certo ponto, funciona como um autorretrato. "Um jovem que quer ser escritor tem tudo a ver com quem conta histórias, como eu." Sobre o fato de seu cinema ser complexo e popular, ele diz: "Não creio que, para atingir o público, eu deva abrir mão do que quero dizer. O cinema pode ser complexo sem ser hermético, pelo menos eu tento".

Em todas as suas entrevistas com o repórter, chega sempre o mesmo momento. Ozon não faz segredo de sua preferência - é gay. É jovem (45 anos, há uns 20 que faz cinema), bonito, bem-sucedido. Apesar disso tudo, a canção de Oito Mulheres define seu sentimento diante do mundo - "Não existem amores felizes". "Devem existir, mas tendem a ser chatos e não dão origem a bons filmes, exceto os japoneses, de (Yasujiro) Ozu. De maneira geral, os amores infelizes rendem ficções melhores", ele diz.

Ampliando um pouco a discussão sobre seu prazer em trabalhar com atores, ele conta: "Não é um filme para fazer com astros e estrelas, como Oito Mulheres e Potiche. Fabrice (Luchini) é um dos atores mais conhecidos e versáteis da França, mas ele não tem a aura de astro e mantém o tipo de homem comum, o que é ótimo para um diretor. Kristin (Scott Thomas) e Emannuelle (Seigner, mulher de Roman Polanski) são ótimas e têm tipos bem diversos, o que é fascinante".

E Ernst Umhauer, que faz o garoto, Claude? "Ele foi um achado. Seu nome é uma homenagem ao pintor Max Ernst, e ele nasceu em Cherbourg, a terra dos guarda-chuvas de Jacques Démy. Ernst ganhou o Prêmio Lumière de ator revelação, o que foi totalmente merecido. É o jovem perfeito. Passa uma ideia de inocência, mas arma um jogo cruel que envolve todo mundo ao redor. É próprio da juventude. Eles não medem o que sua beleza pode provocar", completa François Ozon.

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