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Padrinho é uma pessoa que se entrega

O Estado de S.Paulo

23 Março 2012 | 03h 08

Ser afilhado é bom, mas descobri que ser padrinho é melhor. Quando Sandra Lapeiz e Mariana Reimberg me convidaram, nem acreditei. Imaginem ser padrinho do Programa Livros Para Todos, da Fundação Carlos Chagas, neste ano de 2012. Ano passado foi Lygia Fagundes Telles. Substituir Lygia, nossa escritora maior? Um padrinho é uma coisa importante. Ele é um substituto do pai, orienta, ajuda a educar, a formar princípios. Na minha infância, os padrinhos eram também aqueles que nos davam dinheiro para a matinê de cinema, o sorvete ou a bala. Minha madrinha foi minha primeira professora, portanto, olhem no que me deu! Simplesmente me ensinou a ler e escrever, fez de mim o que sou.

O Livros Para Todos vai levar bibliotecas para 80 cidades com menos de 10 mil habitantes. Neste país, em que bibliotecas são menosprezadas pela Educação e pela Cultura, cada gesto em direção a livros e circulação é para ser recebido de joelhos. Como recomendava meu pai: "Honre cada tarefa para a qual te incumbirem, meu filho". Farei força.

Semana passada teve a cerimônia de apresentação do programa. Depois, no começo da tarde, saímos da Fundação, rumo a Paraisópolis, para visitar a biblioteca Becei, emblemática, criada por Claudemir Alexandre Cabral. Mal sabia o que estava me esperando, à medida que o táxi saiu da Avenida Giovanni Gronchi e começou a entrar em ruelas, vielas, becos cheios de gente, cheiíssimos. Um carro subia, outro descia, não havia espaço, eles se arrumavam, quase colados, eu suava frio, agora nos arranca a porta. Logo à frente, um micro-ônibus virou, parou, fechado por uma camioneta, ao mesmo tempo que de todos os lados numa esquina saíam veículos e a ladeira ficou bloqueada para subir, para descer, até mesmo sair voando, se o táxi tivesse um rotor que o fizesse helicóptero.

No entanto, foram dois minuto apenas. Um cedeu, o outro concedeu, o terceiro concordou, outro encostou, o primeiro passou, o trânsito que estava engarrafado e sem solução se resolveu em minutos. Ah! Como a CET precisa atravessar as vielas, becos e ruelas desta comunidade para aprender como se soluciona o trânsito. Mas não, a CET está aí para colocar marronzinhos na rua a nos multar. Jamais organizar, ajudar, aconselhar, solucionar.

Minutos de pânico, imaginei que não saísse dali, no entanto, o táxi continuou subindo, virava à direita, à esquerda, descia ladeira, subia, prosseguia. Acho que não há um GPS que possa nos dar uma trajetória quando se está numa dessas comunidades. Penso no carteiro entregando correspondência.

Estava em Paraisópolis, fascinado. Uma comunidade organizada, racionalizada, ruas cheias de gente, crianças jogando bola no meio de uma rua de cinco metros de largura. O taxista foi devagar, parou, alguém driblava em direção ao gol defendido por um garoto franzino. Ele veio na direção do carro e chutou fora. O taxista continuou, o goleiro se assustou, gritou:

- Não tem buzina pra avisar a gente?

Foi uma experiência incrível, que mostrou como conhecemos pouco esta cidade múltipla e variada. Ficamos ilhados em nossos bairros, imaginamos que aqui é o mundo, aqui temos tudo. Não, São Paulo surpreende e podemos viver mil anos que não a conheceremos. Casas de alvenaria, casas pintadas, casas em reforma, lojas, botecos, varanda de madeira com plantas, ponto de táxis, lojas vendendo celulares, vestidos numa vitrine elegante, inesperada, empórios insólitos.

Paraisópolis. Formigueiro. Meio-dia e meia vi uma fila extensa subindo a ladeira. O que seria? Compra de ingressos, loteca, uma liquidação? Não, era o restaurante Bom Prato, almoço a R$ 1. Tivesse tempo parava, ficava na fila, viveria a experiência, queria saber que qualidade de comida se tem ali. Senti leve inquietação, na verdade eu era um turista nessa comunidade, um estranho, pássaro fora do ninho. Um paulista não paulista. Em Paraisópolis há agitação, gritos, falas, conversas de uma lado para o outro da rua. Durante todo o tempo em que estive ali, mais de hora e meia, não vi um único PM, um só.

Havia um sobrado azulado, entrei por uma porta de vidro Blindex e me vi na famosa biblioteca que Cabral comanda. Porque ele a inventou, montou, pediu, conseguiu e hoje é um dos focos culturais de São Paulo. Não exagero. Um jovem local que um dia decidiu fazer alguma coisa pelo seu lugar. Fez. Inacreditável a força e determinação de certas pessoas. Em 1995, Cabral olhou em volta, percebeu as carências de sua comunidade, decidiu e montou uma biblioteca com 15 livros. Trabalhou e hoje tem 12 mil livros em suas estantes apertadas num espaço arrumado e aconchegante.

Tive muitas emoções em relação a bibliotecas. Ao conhecer a Mario de Andrade, em São Paulo, a Nacional em Paris, a municipal em Berlim, a da Universidade de Coimbra, com estantes feitas com madeira levada do Brasil. Porém, a do Cabral excedeu. Foi com frio na barriga que percorri esse espaço onde crianças liam, outras brincavam, porque tem brinquedoteca. Surpreendi-me com a mesinha de recepção. Sofisticada, madeira de lei. Cabral explicou: "Uma mulher reformou a casa, ia jogar o bar fora, pedi, ela me deu. É um toque de sofisticação". Senti-me pequeno diante de Cabral. Pequenos todos os ministros e secretários que conheci. Cabral, grande, iluminado, combatente de uma batalha que é a de todos nós. Herói de uma guerra só (como diria Scliar), a das bibliotecas.

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