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Pablo Larraín volta ao Chile sob Pinochet em 'No', que abre a Mostra

'Houve muita gente que se beneficiou durante o governo dele e até hoje seu nome provoca divisão no país', afirma o diretor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2012 | 03h11

Em dia de eleição, todo destaque vai para o cinema político e um belo exemplo da tendência é representado por No, o longa do chileno Pablo Larraín que vai inaugurar a 36.ª Mostra Internacional de São Paulo, na quinta, dia 18, para convidados. Na sexta, dia 19, o evento estará começando para o público, que este ano poderá assistir a cerca de 350 títulos garimpados entre o que há de melhor das novas tendências do cinema mundial. Já existem cinéfilos se preparando, física e mentalmente, para o banquete de filmes. O começo não poderia ser mais auspicioso. No, Não, tem força para sacudir o público e agradar ao paladar mais exigente. A entrevista com Larraín foi feita em Cannes, em maio.

Por que Gael García Bernal para fazer o protagonista?

Porque é um dos melhores atores do mundo, e não apenas de língua espanhola. Mas também porque Gael representa hoje um investimento seguro e, se o seu nome podia me ajudar a viabilizar um filme que ainda mexe com as feridas abertas pela ditadura no Chile, de bom grado nos unimos, ele e eu, para tornar a produção viável.

Não deixa de ser surpreendente que, depois de Tony Manero e Post Mortem, você esteja voltando pela terceira vez ao tema do Chile sob Pinochet. Por quê?

Quando se vive sob uma ditadura sanguinária como a de Pinochet é normal que o tema fique martelando na nossa cabeça. Houve muita gente que se beneficiou durante o governo dele e até hoje seu nome provoca divisão no país. Nunca pensei em fazer uma trilogia sobre o período que não vivi pessoalmente. Os projetos foram surgindo e se consolidando. Acho que agora chega, mas não diria que o Chile de Pinochet é o tema de Tony Manero nem de Post Mortem. É mais um fundo, os temas são sempre outros.

E qual é o tema de No?

O filme recria a campanha do 'não' no plebiscito de 1988, quando os chilenos foram chamados para se manifestar sobre a ditadura do general Augusto Pinochet. Depois de 15 anos de repressão brutal, o Chile havia chegado a um ponto de saturação e o próprio regime percebia que teria de mudar. Gael faz o publicitário René Saavedra, que volta do exílio no México e vai trabalhar numa agência importante, à frente da campanha do 'não'. A oposição, que não é só de esquerda, está dividida e ele tem de harmonizar forças e conceitos contrários. Seu mote é a alegria, a esperança e, para muitos, ao se utilizar de técnicas de propaganda e marketing, ao vender uma ideia como se fosse um produto comercial, ele está traindo o ideal de Salvador Allende. O filme discute comprometimento e participação, como Tony Manero fala de alienação e Post Mortem, de amor.

Isso pode dar uma impressão um tanto maniqueísta, pois o quadro é mais complexo, não?

René tem de enfrentar, dentro da própria agência, o chefe que prepara a campanha do 'sim'. O plebiscito parece que será uma mera formalidade, devido ao controle que a ditadura mantém sobre os meios de comunicação. No plano pessoal, René também briga com a ex-mulher, que mantém a guarda do filho. Gosto de criar personagens multifacetados, que se movem em diversos planos, porque a vida é assim. Esse tipo de personagem exige atores especiais, e Gael (García Bernal) foi especial.

Você tem também Alfredo Castro, que faz o criador da campanha do 'sim'. É um ator com quem você tem trabalhado bastante (em Tony Manero e Post Mortem). Que tal mais essa colaboração?

Alfredo virou uma referência em meu cinema. Nós nos conhecemos há tempos e não necessitamos de muita conversa para nos entendermos. Gael estranhava isso no começo, como se fosse um estranho no ninho. Nunca quis privilegiar Alfredo nem seu personagem, mas ele é frio e controlado como Guzmán (é seu nome em No). Confesso que explorei o clima de disputa entre Gael e Alfredo, porque servia ao jogo dos personagens. Um mais esperançoso e tenso, o outro, cínico. Um diretor, às vezes, tem de fazer essas coisas para servir ao filme e atingir seus objetivos.

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