Os dias incômodos

O que a espada e a pólvora não conseguiram realizar contra os índios as epidemias completaram

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2017 | 02h00

Hoje é Dia do Índio. A data foi instituída por Getúlio Vargas em pleno Estado Novo e, no Brasil, tem a idade da CLT: 74 anos. Havia um tom celebrativo nesse dia na minha infância. Em vez de uma reflexão sobre as terras indígenas e a situação contemporânea do mundo original das Américas, nós catávamos penas do espanador das mães e assumíamos uma identidade mais apache ou sioux do que a de algum grupo do Cone Sul. Nossos indígenas eram os do cinema e era dia de saber que palavras como pitanga ou Anhangabaú tinham matriz indígena. Depois, o mundo indígena era soterrado pelo resto do ano letivo. 

Nos livros didáticos de história, há um capítulo inicial sobre os povos indígenas que aqui estavam quando os portugueses começaram a colonização. Com raras exceções, os indígenas desaparecem do conteúdo escolar para sempre. Se a ministra Cármen Lúcia constatou que as mulheres têm apenas um dia, o Dia do Índio é ainda mais exíguo. 

Comparativamente aos debates que ocupam os jornais no Dia da Mulher (8 de março), Dia do Orgulho Gay (28 de junho) e Dia da Consciência Negra (20 de novembro), os debates sobre indígenas e suas culturas são muito menores. A pressão pela representatividade de mulheres e negros num governo ou até numa propaganda é imensamente mais forte do que pela presença indígena. De muitas formas, todos os grupos que citei (e outros que não trouxe ao debate) são alvo de violências, ataques, preconceitos e piadas. Porém, o menos amparado pela opinião pública é o indígena. 

Houve um tempo em que o lema da colonização norte-americana do Oeste era forte aqui também. “Índio bom é índio morto” foi ideia atribuída, sem muito suporte documental, ao general Philip Sheridan (1831-1888). Ele sempre negou ter dito isso.

A necessidade de exterminar povos indígenas começou por aqui antes dos colonos do norte. Numa das campanhas genocidas mais impactantes da história do Brasil, levada adiante por nosso terceiro governador-geral, Mem de Sá, houve a destruição de mais de duas mil aldeias. O que a espada e a pólvora não conseguiram realizar as epidemias completaram. Indignação na colônia? Seria até anacrônico o sentimento. Houve júbilo e até celebração poética em latim. De Gestis Mendi de Saa (Os Feitos de Mem de Sá), do Padre Anchieta, celebra em milhares de versos o acontecimento contra os indígenas e franceses. A obra também colabora para cristalizar a versão de que nosso primeiro bispo, dom Pero Fernandes Sardinha (1495-1556), tenha sido devorado por indígenas caetés. Importante registrar que o caos pode ter sido criado para justificar campanhas de extermínio contra grupos indígenas. 

O massacre estendeu-se por toda a era colonial e, de muitas maneiras, intensificou-se no século 19. O indígena histórico e distante era celebrado no poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, ou nos romances O Guarani e Iracema, de José de Alencar. O indígena real era assassinado e suas terras ancestrais, usurpadas. Vozes pacifistas, como a do Marechal Cândido Rondon, eram minoritárias no início do século 20. A tônica continuou sendo a do general Philip Sheridan. Estudos recentes mostram que o discurso da mestiçagem e o de transformação de aldeias indígenas em vilas durante o período imperial ajudaram a diminuir ainda mais as luzes sobre os indígenas vivos. Um novo sobrenome e o estatuto da cidadania liberal punham a identidade indígena de lado.

Em pleno século 21, com aguçamento das sensibilidades na luta contra a violência que mata mulheres, negros e gays, os povos indígenas não conseguem o mesmo espaço nos jornais ou nos movimentos sociais, especialmente nas grandes cidades. Um menino caingangue, Vitor Pinto, morre brutalmente sem alarde em Chapecó. Conservadores consideram indígenas preguiçosos, um obstáculo ao crescimento racional da economia de tipo capitalista, como ficou claro no conflito na Raposa Serra do Sol entre arrozeiros e indígenas de cinco etnias que lá vivem.

O silêncio também é na aparência. A mancha mongólica, sinal de ancestralidade asiática (e como tal, base da indígena), é muito comum no Brasil. Muitos brasileiros possuem genética indígena, mas, como a mancha mongólica desaparece com o tempo e a presença de genética de origem africana ou europeia é mais marcante em alguns sentidos, a própria identidade da aparência polariza-se entre diálogos negros e brancos. Apesar de a lei não dizer isso, a mentalidade brasileira considera que o racismo é o sentimento negativo de exclusão e interiorização de afrodescendentes e não de qualquer restrição quanto a origem e aparência de uma pessoa. Desconheço (talvez exista) um caso vitorioso de processo jurídico contra alguém que tenha manifestado ideia ou realizado ação restritiva e depreciativa contra indígenas. 

Sobre a mesa da sociedade brasileira há várias contas a saldar. São carnês vencidos que mostram dívidas antigas. Algumas, como a dívida contra a misoginia, começam lentamente a incomodar o proprietário. Ele olha para o carnê e diz que talvez, em breve, começará a pensar no caso. O boleto da dívida indígena, apesar de ser o mais antigo, o que acumula mais juros e dor, nunca foi, nem vagamente, cogitado como passível de pagamento. Por enquanto e por muito tempo, é o incômodo Dia do Índio. A imensa riqueza das culturas indígenas, a quase infinita variedade linguística (em risco) e a luta pela terra em disputa com pecuária ou garimpo são algo impactante até hoje. O que responderia a egrégia ministra Cármen Lúcia se, além de mulher, fosse indígena? Boa semana a todos. 

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