Oração aos moços que envelheceram

Em meio a dores passadas e novas perspectivas, o velho advogado Rui Barbosa louva a fé e trabalho

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2017 | 03h00

Recebi da Caixa Econômica Federal uma linda coleção com três volumes da obra de Rui Barbosa. Um continha a célebre Oração aos Moços. O autor baiano escreveu, porém não conseguiu proferir, por estar adoentado. Era a formatura da turma de Direito do Largo de São Francisco, em 1921. A edição atual foi revista pela ação diligente de Ariano da Gama Cury. 

Cresci ouvindo citações de Rui. Meu pai, advogado, admirador da retórica clássica, tinha uma frase do Águia de Haia emoldurada no escritório. O quadro falava da decepção dos bons diante do triunfo das nulidades. Rui era um modelo de inteligência, português escorreito e brilho oratório. 

Depois, estudando história, vi que o fulgor de Rui na conferência de 1907 era mais fruto do nosso nacionalismo querendo espaço ao sol do que um autêntico meteoro francófono que teria impressionado as potências. Foi menos do que supúnhamos, ainda que tenha sido bom. 

Também li muitas críticas a esse troar de palavras e frases complexas do estilo de Rui Barbosa. As vanguardas literárias e o pensamento crítico que passamos a viver, viram no advogado um amontoado de sinonímias com frases de efeito e, em si, destituído de verdadeiro valor literário ou filosófico. Rui seria a encarnação do bacharelismo vazio que usava palavras ao vento como prática de uma cultura elitista e anódina. Seria uma espécie de Conselheiro Acácio (personagem do Primo Basílio, de Eça) de platitudes eruditas, frases de perfeita construção sintática e conteúdo duvidoso. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e um novo Brasil não mais via em Rui a referência de saber. 

Reli a Oração aos Moços de uma só vez. Continua pontificando na estrutura formal. Teria ainda validade seu conteúdo?

Rui está velho. Sente o fim que se aproxima. Tem mais de 50 anos de exercício como advogado e mais de 70 de vida. Já exerceu funções diplomáticas e já concorreu algumas vezes à Presidência da República. Já foi deputado no Império e senador na República. Viveu o suficiente para ver seu sonho republicano transmutar-se em poder oligárquico e corrupto. O texto traduz parte dessa melancolia. A República, da coisa pública, tornara-se a re-privada, no duplo sentido da expressão. A tese é de um Rui já erodido pela realidade, porém apostando na próxima geração. 

Diante de si (caso tivesse proferido o discurso), estariam os formandos em Direito como ele mesmo fora, naquele espaço, décadas antes. Como ele comenta, o mundo mudara. Formado durante a Guerra do Paraguai e tendo testemunhado a Franco-prussiana, observa agora um mundo que emerge do terror do conflito mundial de 1914-1918. O ambiente de 1920/21 é de recuperação pós-guerra, pós-gripe espanhola e, pouco após o momento do discurso, de impactos novos com o tenentismo e a grande crise das oligarquias. 

Em meio a dores passadas e novas perspectivas, o velho advogado louva a fé e o trabalho. Em parágrafo que hoje seria lido como de apoio ao empreendedorismo, fala que a origem familiar não é nada e que o esforço de estudo e trabalho desde o amanhecer transforma tudo. Fala do caso do Pe. Francisco Suárez, o famoso jesuíta espanhol que começou os estudos com a fama de limitado e terminou como um dos grandes nomes do pensamento teológico da Idade Moderna. Para Rui, o esforço é tudo. Em passagem pessoal, ele refuta como fantasiosas as teses de que sua produtividade tenha origem no hábito de muito café e pedilúvios gelados para afastar o sono. Defende o método, o esforço e o acordar cedo. “Oração e trabalho são os recursos mais poderosos na criação moral do homem”, registra o soteropolitano.

A Oração aos Moços traz uma longa reflexão sobre a magistratura. Sabedor que muitos jovens naquele centro de excelência se encaminhariam para a carreira de juiz, Rui admoesta que não favoreçam o Estado como princípio, que não vivam para a vitória do governo, mas da lei e da justiça. Dá um conselho muito interessante para aquele momento: o juiz deve evitar a publicidade excessiva. 

Os juízes são a esperança de futuro contra uma pátria injusta. Sua missão supera o indivíduo. Todo o texto está atravessado de referências sobre Deus, justiça divina e o sentido superior da existência humana. 

Ao final, Rui Barbosa dirige sua fala para os jovens advogados. Tantos rostos esperançosos e repletos daquela energia de quem pretende transformar o mundo. Moços que, pela época da formatura, tinham acompanhado fatos notáveis como a Greve Geral de 1917 e a deposição de quatro imperadores. Estavam, vindos de todo o Brasil, no centro de São Paulo que se inchava de orgulho, dinheiro e pessoas. Os automóveis tinham se tornado mais comuns, a eletricidade já era cotidiana, bondes elétricos cortavam a Pauliceia, a vida estava à frente daqueles bacharéis. Para esses corações ansiosos e com as certezas que só podemos ter quando muito jovens, Rui escreve: “Mãos à obra da reivindicação de nossa perdida autonomia; mãos à obra da nossa reconstituição interior; mãos à obra de reconciliarmos a vida nacional com as instituições nacionais; mãos à obra de substituir pela verdade o simulacro político da nossa existência entre as nações. Trabalhai por essa que há de ser a salvação nossa. Mas não buscando salvadores. Ainda vos podereis salvar a vós mesmos. Não é sonho, meus amigos: bem sinto eu, nas pulsações do sangue, essa ressurreição ansiada. Oxalá não se me fechem os olhos, antes de lhe ver os primeiros indícios no horizonte. Assim o queira Deus”. 

Rui morreu em 1923. Todos os moços que ouviram aquela oração já são túmulos venerandos. Os netos dos moços já devem ser sexagenários. Terão passado esses valores? Ecoa ainda o valor de Rui? Bom domingo a todos vocês. 

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