Onde os fracos não têm vez

Protagonizado por Daniel Craig e com Javier Bardem na pele do vilão, eis o mais autoral dos filmes de James Bond

O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2012 | 03h12

Nunca houve um intérprete de James Bond como Daniel Craig. Nunca houve um filme de 007 como Operação Skyfall. O espectador pode até se decepcionar um pouco, pois se o filme tem ação - e é isso que o público espera do agente secreto mais famoso do cinema -, na verdade tem mais ainda drama. Marc Foster já tentara imprimir suas marca de autor em Quantum of Solace. Sam Mendes faz agora o mais autoral dos filmes de James Bond.

São 50 anos da grife - tomando-se como ponto de partida O Satânico Dr. No, que Terence Young realizou em 1962. Conta a lenda que Young, ao ser informado da decisão dos produtores, que haviam escolhido Sean Connery para o papel, teria dito - "F....!" E ele acrescentou que teria de ensinar tudo para Connery, a quem considerava um grosseirão. Verdadeira ou falsa - 'imprima-se a lenda', como dizia o editor de O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford -, a história é boa e, se Young ensinou, Connery absorveu as lições do mestre e as transcendeu.

Houve outros intérpretes de James Bond, e você é livre para preferir Roger Moore ou Pierce Brosnan. Mas Connery foi especial. E foi com ele que Terence Young e Guy Hamilton formataram o que seriam, na tela, as aventuras do herói criado pelo escritor Ian Fleming - em filmes como Dr. No, Moscou Contra 007 e 007 Contra Goldfinger. Bem mais tarde veio Daniel Craig, e com ele uma verdadeira revolução. 007 - Cassino Royale foi a maior bilheteria de toda a série, mas ainda tinha um diretor, eficiente mas convencional, de ação, Martin Campbell.

Barbara Broccoli, filha do produtor Robert Broccoli, foi quem bancou Daniel Craig, num momento em que as apostas apontavam para Clive Owen como 007. Aprovado o astro, graças ao sucesso de seu primeiro filme no papel, Craig teve cacife para incentivar a bela Barbara - ela poderia muito bem, por sua beleza madura, estar frente às câmeras - a ousar. Primeiro com Marc Foster, mais ainda com Sam Mendes. Vencedor do Oscar por Beleza Americana, ele não deixa de ser uma escolha surpreendente para a direção de Operação Skyfall.

No início, Craig convenceu Barbara a contratar Sam Mendes como consultor artístico. Na confusão que envolveu o processo de falência da empresa produtora Metro, Mendes terminou empossado como diretor, e isso faz toda a diferença. De Beleza Americana a Foi Apenas Um Sonho, Mendes tem falado de pais e filhos. Em Soldado Anônimo, radicalizou e usou uma história da Guerra do Iraque de George Bush para falar da guerra de Bush filho (George W.). A mãe, M, é agora a grande personagem de Skyfall.

É possível que Barbara Broccoli e Daniel Craig já pensassem neste filme, anos atrás, quando a grande Judi Dench se integrou ao elenco da série. Os dois filmes anteriores foram preparativos para o pathos que ela traz agora para o relato. Logo no começo, numa operação arriscada, M ordena que um tiro seja disparado. Por conta disso, 007 é dado como morto, mas ressuscita. A trama diz respeito ao resgate de um disquete com os nomes de agentes infiltrados em grupos terroristas ao redor do mundo. Quem roubou foi um misterioso 'Silva' - Javier Bardem, sinistro como vilão, mas menos assustador como o assassino de Onde os Fracos não Têm Vez, dos irmãos Coen.

Operação Skyfall é sobre a velha espionagem em choque com os novos tempos da internet. No limite, é sobre a complicada relação de uma 'mãe' e os dois filhos a quem ela sacrifica. Existem cenas espetaculares de destruição. Os personagens definem-se por suas ações, mas o que importa é o drama. Silva faz um avanço homossexual sobre 007 e diz que há uma primeira vez para tudo. Craig reage - "E o que o faz pensar que é a primeira vez?" Até nisso, Sam Mendes faz história numa das séries mais sexistas (a mais?) do cinema.

Crítica: Luiz Carlos Merten

JJJJ ÓTIMO

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