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Obras da escritora Cecília Meireles ganham novas edições

Os livros 'Romanceiro da Inconfidência', de 1953, e 'Viagem', de 1939, foram reeditados

ALCIDES VILLAÇA - especial para o 'Estado',

30 Outubro 2012 | 02h10

O acolhimento pleno da poesia de Cecília Meireles exige que o leitor partilhe a singular e fina sintonia lírica em que canta a poeta. A consonância não é fácil: fica na contramão de celebradas razões de força da poesia moderna. Estas reedições de Viagem (1939) e do Romanceiro da Inconfidência (1953) recolocam-nos diante da pergunta essencial, que a poeta se faz sem aventar resposta: "Se nem sei onde estou, / como posso esperar que algum ouvido me escute? // Ah! se eu nem sei quem sou, / como posso esperar que alguém venha gostar de mim?"

Mas é exatamente desse não saber de si que Cecília constrói sua identidade lírica radical. Seu eu viaja e aprofunda-se em interrogações diante de um espelho interno exigentíssimo, em cuja superfície movem-se símbolos essencialistas que mais sugerem que revelam: o mar, a rosa, o céu, o vento, as nuvens e tantos mais. A dificuldade de sintonia para os ouvidos do leitor moderno, em quem costumam ressoar com familiaridade as vozes dos nossos outros poetas maiores, deriva do deliberado apagamento ceciliano de traços existenciais mais visíveis. Sua lírica, em Viagem, soma inquietações que suprimem o empirismo do cotidiano, o recorte corporal do outro, o espaço reconhecível de uma vivência: vive de símbolos, que funcionam como vestígios sensíveis de uma busca incerta: "- Para que serve o fio trêmulo / em que rola o meu coração?" (Fio). O crítico Otto Maria Carpeaux não hesitou em qualificar a arte de Cecília como "poesia intemporal", saudando a aspiração a uma virtude poética que muitos veem como limitação.

Arma-se aí uma questão de interesse para quem pensa a lírica moderna. A recusa ceciliana à definição de um eu poético diretamente confrontado com a experiência do mundo, seja para acolhê-la (Manuel Bandeira), dramatizá-la (Drummond) ou discipliná-la (Cabral), implica sua transmutação em canto puro, em signos de ausência, em ressentimento de alguma alta promessa que a vida não cumpre. Ser poeta, nesse diapasão, é operar os símbolos de uma interioridade que canta a si mesma e por si mesma, aberta apenas para horizontes pressentidos, e logo suprimidos. Dá-se, com isso, o canto de um eu cuja força está, paradoxalmente, nas formas belas que personalizam a despersonalização. O sublime fica perto da morte, ou mesmo se confunde com ela, e os mais variados elementos da natureza concorrem para dar notícia do retrato difícil: a mulher que se projeta e se interroga num espelho severo, colhendo de volta os traços de uma sofrida indeterminação.

Mulher moderna? Poesia feminina? Não sei se o mal maior está em responder afirmativa ou negativamente. Há uma percepção de mundo que se dá como perspectiva estoica, identificada com a dos mendigos, por exemplo, que já desistiram de tudo: "Os mendigos maiores vivem fora da vida: fizeram-se excluídos. (...) / E seu corpo não sofre nem goza. E sua mão não toma nem pede. (...) Ah, os mendigos maiores são um povo que se vai convertendo em pedra. Esse povo é que é o meu" ("Estirpe"). Esses versos não cantam o heroísmo, o drama, a tragédia, a revolução dos varões: falam da força muda de renúncias conscientes de si mesmas, à margem do que seja vitória ou derrota, lugar em que o ponto de vista masculino tem mais dificuldade para se instalar. Mas de forma alguma a percepção poética de Cecília se ampara e se expressa como fragilidade: a delicadeza se impõe como potência artística, a dura reflexão entoa incisivos cantábiles, um olhar inquieto se vê a si mesmo como símbolo implacável. As marcas da mulher poeta (que não se assinava "poetisa") ensinam uma forma especial de telurismo. Viagem introduz o amadurecimento da lírica ceciliana, expondo os movimentos íntimos de um sujeito poético que as expectativas mais óbvias de modernidade relutam em aceitar.

Se a poeta lírica não parece enraizada no cotidiano, a jornalista e intelectual Cecília Meireles foi ativista por vezes radical de causas liberais, demonstrando sua repulsa aos ditadores, preocupando-se com a valorização e a laicização do ensino público, com as reformas da educação. De suas viagens pelo mundo dá o testemunho sensível, em prosa e em verso, de quem sente, recolhe e avalia as particularidades culturais. No Brasil, tendo ido assistir aos eventos da Semana Santa em Ouro Preto, sentiu-se provocada pelos vivos fantasmas históricos de Vila Rica, e aplicou-se por quatro anos nas pesquisas de que resultaria o Romanceiro da Inconfidência. Aqui, a sensibilidade atualiza-se na forma narrativa do gênero. Da presente edição consta a conferência Como escrevi o Romanceiro da Inconfidência, pronunciada em 1955, na qual Cecília considera o tamanho da tarefa que "impunha, acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, que se confessavam, que exigiam, quase, o registro de sua história".

Vozes que narram desde o passado: eis uma forma de se ouvir o conjunto do poema, no qual se intercalam referências aos cenários (apontados como presença), às falas (intervenções da consciência moral), em meio aos tantos romances que, com sábias variações rítmicas, dinamizam o andamento das narrativas. Está na diversidade destas a compreensão ceciliana do que seja a História: não apenas a sucessão dos feitos notáveis, mas o enredamento de paixões secretas, os gestos íntimos, os solilóquios, os eventos laterais, projeções e recortes do tempo que dão acesso, por exemplo, a uma "Marília envelhecida". À sombra de "tantos volumes de Horácio/, de Júlio César, de Ovídio" ("Romance XLVII"), o classicismo ilustrado empresta sua tonalidade a muitas passagens e se compõe bem com a indignação moral que faz o fundo do romanceiro, sem prejuízo para tantos momentos de alta voltagem lírica.

No prefácio desta edição, Alberto da Costa e Silva lembra, a propósito dos romanceiros, que "nos enredos tradicionais é comum a presença do demônio" e que no romanceiro ceciliano "o ouro toma o seu lugar". De fato, o "vasto campo da ambição" dos homens, tal como acusava a febre do ouro o poeta e inconfidente Cláudio Manuel da Costa, faz germinar o interesse do delator, em contraste com a coragem e o anseio do libertário. Tal oposição é singela, arrisca o simplório, mas a alta poesia sabe escavar, acima das declarações, a expressão dramática que conta. Pude sentir a força do Romanceiro, de modo pessoal e muito sugestivo, quando professor de Português de escola pública, no pior tempo da ditadura militar. Encarregado de ilustrar uma cerimônia cívica com um "número artístico" dos estudantes, fiz uma colagem de diferentes momentos do poema de Cecília, a serem declamados por um jogral de alunos. A colagem interrogava de muitos modos a ação da violência e o anseio de liberdade, o despotismo e a busca de justiça. Alguns colegas meus, depois da apresentação, solidarizaram-se comigo, sob a forma de olhares e polegares erguidos, como a saudar tão louvável subversão... Acreditava Cecília: "Os fantasmas sabiam, certamente, o que queriam dizer".

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