O vice pode assumir

Nesta terça-feira, dois políticos virtualmente desconhecidos no Brasil vão se encontrar por uma única vez na campanha eleitoral norte-americana. Neste ano, fomos lembrados da importância de conhecer o vice-presidente.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2016 | 02h00

Os candidatos a vice de Hillary Clinton e Donald Trump participam amanhã de um debate no Estado de Virgínia. O democrata é Tim Kaine, senador e ex-governador de Virgínia, o republicano é Mike Pence, governador de Indiana, no Meio-Oeste.

Debates de vice-presidentes são curiosidades, embora um deles tenha produzido um clássico do gênero reprisado até hoje. Em 1988, o veterano senador democrata Lloyd Bentsen, vice de Michael Dukakis, fez o comentário que selou a imagem de fraco e ignorante do futuro vice-presidente de George Bush, pai, Dan Quayle. “Tenho tanta experiência no Senado quanto tinha John Kennedy”, disse Quayle. Bentsen retrucou, pausadamente, que havia trabalhado com Kennedy e tinha sido seu amigo. E disparou: “Você não tem nada de Jack Kennedy”.

Não devemos esperar momentos eletrizantes no debate dos candidatos a vice. Tim Kaine é um político experiente que não parece aspirar a protagonismo. Além da possibilidade de morte, renúncia ou impeachment – nove vice-presidentes dos EUA assumiram a presidência em 227 anos –, Mike Pence precisa ser colocado no microscópio para o eleitorado norte-americano. E ele mesmo já apontou o motivo, ao dizer que seu modelo de vice-presidente é Dick Cheney, o Cardeal Richelieu dos nefastos anos George W. Bush, que nos deram a guerra no Iraque, erosão de direitos civis e a exacerbação de políticas econômicas que culminaram no crash de 2008.

Na noite de sábado, a campanha de Trump anunciou que ele ia ler um curto comunicado sobre Hillary Clinton. Mas, aparentemente, Trump foi avisado do furo do New York Times, cuja repórter obteve uma cópia de parte de sua declaração de renda, antes de subir ao pódio de um comício. Trump se recusa a mostrar suas declarações de renda. O que se seguiu foi um assustador derretimento emocional. Trump não conseguia se concentrar no texto do teleprompter e levou uma eternidade para concluir as nove frases, interrompendo para insultar Hillary, especulando, inclusive se ela tem um amante. Além disso, imitou Hillary tropeçando quando ela passou mal com pneumonia, num momento tão embaraçoso que um veterano repórter político de Washington comentou: “Estamos no Terceiro Mundo”.

A ignorância de Donald Trump sobre política nacional, economia e sobre o mundo é lendária e documentada. Ele mesmo sugeriu que Mike Pence estará muito ocupado numa presidência Trump. Pence é um das desculpas usadas por conservadores para justificar o apoio a um candidato tão perturbador, que bate de frente com ideias tradicionais do conservadorismo. Uma compilação feita pela rede NBC mostrou que Trump mudou de ideia 126 vezes sobre 21 questões importantes na agenda presidencial, desde que se tornou candidato.

Mas Mike Pence, além da tarefa ingrata de aparecer na TV apagando incêndios de seu companheiro de chapa, não desviou expressivamente de seu trajeto político. E há muito o que temer numa vice-presidência Pence inspirada em Dick Cheney.

Pence ficou conhecido como obstrucionista na Câmara, propondo cortes até na esteira de calamidades como o furacão Katrina que devastou Nova Orleans, em 2005. Ele votou contra todos os pacotes de estímulo econômico, inclusive depois do crash de 2008. Nega a existência da mudança do clima e é um favorito do lobby das armas de fogo. Mistura a religião evangélica com política e, em sua cruzada contra o aborto, reduziu drasticamente o financiamento de clínicas que fazem testes para doenças venéreas, o que provocou uma alta de casos de HIV em seu estado.

Olho nos vices.

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