O testamento poético de Raúl Ruiz

Assim como Jorge Luis Borges deu a um seu poema o título de La Luna de Enfrente, o cineasta chileno Raúl Ruiz (1941-2011) chamou seu testamento cinematográfico de La Noche de Enfrente. Ao filmar, estava já muito doente, tinha a morte diante de si, mas deixou de legado um filme belíssimo, cheio de vida, cor e mistério.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2012 | 02h08

É também um reencontro de um Ruiz durante décadas radicado na França com seu país. Percorre o Chile de Santiago a Antofagasta, passando pelas cidadezinhas de Quilpé e Villa Alemana. O olhar é o de um menino, espantado de curiosidade diante do mundo. Além disso, La Noche de Enfrente é uma recapitulação de toda a filmografia de Ruiz, uma longa meditação sobre o tempo na existência humana.

O tempo, como sabemos, não aparece apenas como tema no cinema de Ruiz, mas como fundamento de sua linguagem. Esculpe-se em longos planos sequência, mimetismo da nossa vida biológica exposta aos limites da duração.

Em La Noche de Enfrente, o alter ego de Ruiz em sua busca memorialística é Don Celso (Sergio Hernandez), um senhor à beira da aposentadoria. Ele tem a certeza de que será assassinado e, em sua trajetória final, encontra vários personagens, inclusive um Beethoven vestido com roupas de época e que é apresentado à magia do cinema. Enfim, o alter ego do cineasta é tanto o velho prestes a morrer quanto o menino que tem a vida diante de si. Infância e velhice convivem em cada um de nós e, como dizia Freud, o inconsciente não tem idade. Há uma chama de juventude habitando o peito de cada moribundo e, por isso, cada qual à sua maneira, somos um pouco imortais. Esse é o testamento maior do artista.

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