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O taxista que só dizia hum, hum, num, num

Desceu no aeroporto, entrou no táxi, deu bom dia, o motorista perguntou:

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Ignácio de Loyola Brandão

22 Janeiro 2016 | 02h00

“Para onde, doutor?”

Deu o endereço e puxou conversa.

“Dia quente hoje.”

“Hum, hum.”

“Promete chuva.”

“Hum, hum.”

“Pode ligar o ar condicionado? Estou suando em bicas.”

“Num, num.”

“O que disse?”

“Num, num.”

“Não sei o que significa. Pode explicar?”

“Num, num.”

O passageiro ficou cabreiro. Sujeito mais estranho. Que língua estava falando? Teria problemas, estaria gripado, com dor de garganta, não gosta de falar? Tem gente assim, não gosta de falar. Mas um motorista de táxi? São os mais faladores, conversam sobre futebol, política, religião, alguns tentam nos converter, convidam para o culto, contam manias de passageiros, de mulheres gostosas que entram no táxi e querem dar para eles, de famosos que não dão nem bom dia, de famosos que são simpáticos. Reclamam da vida difícil, do baixo preço das bandeiradas, dos impostos, da mulher que entrou na menopausa, das caixas de lápis de cor, das lâmpadas queimadas, dos coxinhas raivosos contra o Chico Buarque, do BBB.

“O senhor está doente?”

“Num, num.” 

“Por que não responde? Estou incomodando?”

“Hum, hum.”

“Ou não fala português?”

“Hum, hum.”

“Percebi, o senhor não pode falar, não quer falar, não vai falar.”

“Hum, hum.”

“É uma promessa? Ficou doente, teve alguém da família doente, prometeu a Nossa Senhora Desatadora do Nós que não falaria mais?”

“Num, num.”

Então chegaram, o passageiro morava quase em frente à CPL, uma padaria, famosa padaria. Pagou, desceu, entrou para tomar um café e percebeu que o motorista veio atrás.

“Pago o café do senhor, mas vamos ali para aquele canto, onde ninguém pode nos ver. Ali vou falar.”

Intrigado, ele foi e o motorista explicou que havia uma lei, disseram que era ato institucional, emenda, ele não sabia o que, mas era uma lei. Os motoristas estavam proibidos de conversar com passageiros. Em cada táxi tinha sido instalado um sistema de comunicação, um grampo, ou escuta, ele não sabia direito o quê. Um radarzinho, porque os administradores adoram radarzinhos delatores, que transmitem todas as conversas, até vídeos. Havia uma central, onde milhares de funcionários públicos, admitidos sem concurso (mas respeitadas as cotas) vigiavam tudo e aplicavam sanções imensas, alguns tinham perdido o táxi.

“Não podem falar nada, ou há temas sobre os quais não podem se expressar?” 

“Temos um livro com os assuntos proibidos. Vou mostrar, mas o senhor não viu. Estará vendo, mas não viu, não sabe de nada. Como aquele velhinho que foi presidente e nunca soube de nada.” 

Dentro do bar, o passageiro repassou por alto as mil páginas em papel bíblia, letrinha miúda, corpo 6, com a relação. Lembra-se de que é vetado falar de geopolítica da fome, metalinguagem, desconstrução, taxa Selic, desabastecimento na Venezuela, do golpe na Bancop, de socialismo, tendências da moda, fome no Nordeste, criação de bois, impeachment, escândalo no tênis com a compra de jogos, fraudes na Mega Sena, minissaias, silicones, popozudas, separação do Chimbinha, terrorismo, dengue, zika, homossexualismo, laranjas verdes, frutas podres, alimentos vencidos, refugiados europeus, estupro, candidatura do Datena, Lava Jato, jet lag, jet set, rações de animais, papagaios faladores demais, cães de uma perna só, orgasmos, CBF, Romero Brito, bolacha maisena, prostituição, Mercosul, pão na chapa, média de café com leite, rabo de galo, vandalismo, vidraças quebradas, estilingues, mau hálito e milhares de outros temas.

“Entende agora porque não falo? Estamos com tudo engasgado nas gargantas. Mas o sindicato comprou um terreno, fora da cidade, no fim do dia, vamos todos para lá e falamos, falamos, falamos até perder a voz, é nosso alívio. O campo das lamentações. Muito obrigado por me ouvir, doutor.”

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