O susto da Zeferina

Amanhã é dia de eleição em Nova York e vai sair vitorioso um candidato que praticamente não fez campanha. Que alívio, diriam alguns brasileiros, exaustos da propaganda política, das promessas insinceras e do histrionismo de Tiririca e companhia.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2014 | 02h05

Mas o candidato que as urnas vão confirmar amanhã sonha ser presidente dos Estados Unidos. Explico: teremos a primária, uma eleição que seleciona os dois candidatos, democrata e republicano, para concorrer em novembro. O candidato meio na moita é o democrata Andrew Cuomo, atual governador do Estado de Nova York, o segundo maior colégio eleitoral do país. A reeleição de Cuomo era considerada certa em parte por que o Partido Republicano, sabendo de sua popularidade, não ofereceu um adversário competitivo. Mas, há três meses, apareceu Zephyr Teachout, uma candidata para desafiar o agressivo e autoconfiante Cuomo, na forma de uma professora de Direito desconhecida dos eleitores. Seu primeiro nome, em português seria Zeferina, é homenagem ao deus grego dos ventos que vêm do Oeste.

No começo, a reação dos comentaristas políticos era de surpresa divertida. Mas a reação tipo arrasa-quarteirão da campanha de Cuomo, usando uma ação legal frívola para bloquear a candidatura da acadêmica, dá uma medida do quanto a política tem se transformado, seja na Vila Madalena ou no Brooklyn.

Zephyr Teachout é uma respeitada autora e especialista em corrupção no sistema político norte-americano e pinçou temas específicos da plataforma de Cuomo que vão contra a cartilha progressista. Sua campanha é quixotesca em financiamento e equipe, mas seu candidato a vice-governador é um professor de Direito da Columbia, Tim Wu, autor de Impérios da Comunicação, lançado no Brasil. Wu cunhou o termo neutralidade na rede e é uma celebridade nos debates legais sobre a internet. Acontece que a lei deste Estado permite votar no candidato individual e não na chapa. Cuomo escolheu para vice uma democrata tão conservadora, Kathy Hochul, que, quando suas posições foram expostas numa montagem em vídeo, a estrela de Tim Wu começou a subir. E Cuomo passou pela humilhação de não ser endossado pelo The New York Times - entre outros motivos, por ter dispersado uma comissão de estudo da corrupção que corre solta no norte do Estado, onde fica Albany, a capital. O mesmo editorial do Times endossou Tim Wu para vice.

O que acontece em Nova York é não é muito diferente do que acontece no Brasil. Para o bem ou para o mal, a internet e a mídia social fragmentaram o eleitorado em grupelhos. Quem faz campanha para governador ou presidente, precisa vender programas amplos em economia, saúde, educação ou segurança. Mas nosso espectro de atenção se estilhaçou em tantos pedaços que é possível sacudir campanhas invencíveis sem doação de frigorífico ou muito tempo na TV.

Quando 2014 passar, será que marqueteiros vão falar do 'efeito Eduardo Jorge'? A errata quase instantânea na plataforma de Marina Silva sobre casamento gay é filha da mídia social e do ativismo evangélico. A súbita notoriedade da chapa Teachout-Wu em Nova York, ainda que não se traduza em efetiva transferência de poder e guinada relevante para a esquerda, tem a mesma linhagem.

É uma mudança que desafia políticos como Dilma Rousseff e Andrew Cuomo. O governador não pronuncia o nome da adversária e faltou a todos os debates propostos pela mídia de Nova York. No sábado, uma cena filmada numa parada expôs o suposto presidenciável Cuomo a um ridículo vastamente explorado on-line. Zephyr Teachout se aproximou do governador para cumprimenta-lo. Ele continuou olhando para frente, rígido, virou as costas, num gesto que além de revelar descortesia, expôs sua insegurança.

Um amigo carioca e analógico, que me visita neste domingo, se mostra preocupado com o poder da mídia social de distrair o eleitor brasileiro dos temas urgentes. Reforma econômica é urgente, casamento gay não é, argumenta, embora seja totalmente a favor da união entre quaisquer criaturas que respirem. Mas os ventos são outros. Armínio Fraga, um respeitado economista de carne e osso, seria munição certeira em campanhas de outrora. Mas na anarquia virtual, ele é também uma abstração.

Mais conteúdo sobre:
Lúcia Guimarães

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.