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'O Rei Leão' aposta no simbolismo para tratar de raça, morte e multiculturalismo

O espetáculo musical da Broadway chega ao Brasil em março de 2013 com elenco diversificado

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

03 Outubro 2012 | 03h10

NOVA YORK - Entre as ousadias da diretora Julie Taymor, está a preservação de canções africanas no idioma zulu - especialmente a que abre O Rei Leão, quando um desfile de todos os animais (engenhosamente manipulados pelos atores) termina no palco, culminando com a apresentação do pequeno Simba aos súditos. "A montagem não poderia contar com estereótipos, pois negaria toda sua essência", disse a encenadora que, ao acompanhar as montagens internacionais do musical, impõe como regra tal respeito.

Daí o convite para Gilberto Gil cuidar da versão em português das canções de Elton John e Tim Rice. "Conheço o trabalho de Gil de longa data - trata-se de um músico de inegável valor e seu trabalho me interessa especialmente por trazer um multiculturalismo original", comenta Julie. "Sempre recomendamos que a versão local do musical seja feita por um autor com identificação imediata com o público", acrescenta Tom Schumacher, diretor de teatro da Disney. "Claro que há uma obrigação de a letra se adaptar com a melodia, que não pode ser alterada - mas esse desafio resulta em trabalhos belíssimos", acrescenta.

Schumacher pode ser apontado como um dos principais responsáveis pelo sucesso mundial de O Rei Leão, ao lado de Julie Taymor. Afinal, foi sua determinação em bancar as ousadias da encenadora que transformaram o produto em algo ainda hoje original. E, para a montagem brasileira, o produtor tem especial interesse. "Minha visão de um teatro multifacetado foi moldada quando assisti a uma montagem de Antunes Filho, em 1985, durante um festival", conta ele. "Fiquei extasiado e descobri ali como a arte pode atingir um grande público." Isso passou a nortear seu trabalho desde então.

E a aposta mais alta foi investir no talento de Julie, cuja obra ele conhecia apenas por fotografias - mesmo assim, notou ali uma organicidade. "Quando começamos a trabalhar em O Rei Leão, fiquei entusiasmado com os interesses ideográficos de Julie, que ajudam a descobrir a essência do personagem."

Schumacher se refere ao predomínio do círculo no musical: desde o enorme sol que invade o palco na primeira cena até a canção principal, Círculo da Vida, passando pelo contorno das máscaras dos personagens. "É uma excelente representação de como funcionam as gerações, desde o nascimento de novos membros até a morte dos mais velhos que, por sua vez, são novamente substituídos."

Julie chegou ao requinte de utilizar o recurso de forma harmoniosa e criativa - basta observar a máscara que representa Scar, o leão invejoso que toma o poder à força: os traços são sinuosos e lembram uma serpente, exalando uma certa viscosidade. Não há linhas retas, o que revela seu caráter deturpado.

Mesmo que o detalhe passe despercebido por alguns, a vilania do personagem é bem representada. Julie manteve-se fiel à tradição da cultura africana ao criar os acessórios utilizados pelos atores. As estampas e as cores dos figurinos foram inspiradas em peças originais, assim como a forma como é esculpida cada uma das máscaras segue a tradição africana. "A interconexão de culturas acontece quando o público assiste ao musical e o abraça com carinho", filosofa Schumacher.

A adesão só é completa com a música, que possibilita o surgimento de um momento quase ecumênico entre a plateia e a história de O Rei Leão. Schumacher conta que ficou surpreso com as letras criada por Tim Rice, veterano compositor e autor de clássicos como Jesus Cristo Superstar e Aladdin. "Tim elaborou canções surpreendentemente espirituais, o que é reforçado pelo constante uso do som africano no musical.

Há 22 anos cuidando das montagens teatrais da Disney, Tom Schumacher não se surpreende com o sucesso. Assim, enquanto cresce a excitação em torno da montagem brasileira de O Rei Leão, ele está de olho mesmo na Pequena Sereia. "Ainda não foi um sucesso, mas insisto com o projeto, até descobrir sua fórmula certa", conclui ele.

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