O que pensa o jovem Sr. Semana da crítica

Este ano mais de mil filmes passaram pelo funil que resultou na seleção da Semana da Crítica, no Festival de Cannes. La Semaine de la Critique possui a menor seleção do maior festival do mundo - afinal, são apenas sete dias num evento que, nas demais seções, dispõe de mais cinco dias para exibir novos filmes. A semana revelou para o mundo Wong Kar-wai, Bernardo Bertolucci, Ken Loach e Cacá Diegues. Tem sido uma importante vitrine para o jovem cinema brasileiro. Por isso mesmo, o encontro que a Mostra promove hoje é atraente, em especial para novos diretores.

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2012 | 07h10

A Semana da Crítica exibe só filmes de novos autores - estreantes ou que estejam no segundo filme, exatamente o perfil dos cineastas que concorrem ao prêmio da Mostra, o troféu Bandeira Paulista. Você não precisa ser diretor, leitor. Basta ser cinéfilo. Qual é o filme que pode interessar à Semana da Crítica de Cannes?

Às 3 da tarde de hoje, no Museu da Imagem e do Som (Avenida Europa, 158, telefone 2117-4777), Rémi Bonhomme dá uma palestra justamente para tentar responder à pergunta. Ela é aberta ao público em geral, mas pode interessar mais a realizadores em princípio de carreira. A Semana exibiu este ano o curta O Duplo, de Juliana Rojas. Bonhomme (literalmente, Bom Homem) aposta na diretora e arrisca que ela será um dos grandes nomes do cinema brasileiro no futuro.

É a principal característica da Semana. "Por se tratar de uma mostra de estreantes, sua função é apontar novos talentos. E isso é muito difícil. As demais seções apresentam filmes que podem ser, e muitas vezes são, de autores de prestígio reconhecido. Muita gente sai da Semana para as mostras Quinzena dos Realizadores, Un Certain Regard e para a competição. Nossa função é garimpar esses futuros talentos."

Rémi Bonhomme agora fala no plural, e essa é outra marca da seção. Enquanto as demais possuem cada uma seu delegado-geral (délegué-genéral) e ele assina a curadoria, a Semana é a única que tem o seu delegado, mas as escolhas de filmes são feitas por um colegiado. "O primeiro desafio dos novos diretores que tentam a Semana é convencer um grupo que é heterogêneo. O que buscamos não é unanimidade, mas consenso. Mesmo sem gostar de determinado filme, é preciso aceitar que ele se beneficie da vitrine de Cannes."

Os critérios variam. Já houve época em que os filmes eram escolhidos por região. Hoje, o grupo pode se dividir internamente e pesquisar por região (Europa, América Latina, África, Ásia), mas o reduzido número de filmes poderá abrigar mais de um da mesma região. "O importante é que os novos autores estejam propondo coisas novas, intrigantes, estimulantes. Se há uma seção de Cannes que privilegia a inovação é a Semaine. Nela, não há espaço nenhum para a mesmice."

Aos 34 anos, Bonhomme passa boa parte do tempo viajando - conhecendo países e festivais. Eric Rohmer fez Les Nuits de la Pleine Lune, na série Comédias e Provérbios, apoiado no dito popular, "quem tem duas casas perde a razão". Ficções à parte, Bonhomme é a prova que contradiz Rohmer. Sua vida, durante o ano, divide-se em domicílios em Paris e Beirute. Bonhomme é exibidor no Líbano. Está aqui trazido pelo Cinema do Brasil - o objetivo do grupo é promover o cinema brasileiro no exterior. Bonhomme gostaria de mostrar um pouco do cinema libanês aos brasileiros, do brasileiro aos libaneses. O intercâmbio seria bem-vindo, mas a seleção da Semana é outra coisa. "O próprio colegiado é uma garantia de que ninguém vai favorecer interesses pessoais", afirma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.