O que há com Obama?

NOVA JERSEY - No minuto em que Barack Obama abriu a boca pela primeira vez no debate presidencial, e anunciou que o ponto "mais importante" a ressaltar naquela noite era que se tratava do dia exato de seu aniversário de casamento com Michelle – o ponto mais importante! –, ficou claro que ele estava perdido. Ali estava o presidente dos Estados Unidos, o comandante-chefe, o homem mais poderoso do mundo, agindo como se esta não fosse uma eleição em que tudo está em jogo. Ali estava ele, brincando, como se estivesse em um dos programas humorísticos de fim de noite dos quais tanto gosta de participar, e não prestes a entrelaçar chifres com o mais agressivo desafiante de sua carreira política.

Lee Siegel,

07 Outubro 2012 | 01h41

 

Romney, por sua vez, sabia exatamente o que estava em jogo. Cumprimentando Obama com uma sutil, mas perceptível, subcorrente de desprazer, ele disse: "Estou certo de que este era o lugar mais romântico que você poderia imaginar, aqui comigo". A ironia e o desprezo foram cortantes. Mas a consciência de Romney sobre a importância do momento, contrastada com a frivolidade de Obama, foi revigorante. Ela transmitiu, com dramática intensidade, a questão que Romney vem tentando salientar. Que Obama é desligado, desengajado, indiferente aos sofrimentos do país.

 

Evidentemente, o absurdo desse argumento está claro para todos que acompanham as duas campanhas. Obama tirou o país da beira do desastre econômico, aliviou o fardo da classe média, aprovou novas leis revolucionárias na área de saúde, pôs fim à guerra catastrófica no Iraque e matou Bin Laden. Mas, num momento em que as aparências contam mais do que tudo na política americana, Romney conseguiu virar esses fatos de cabeça para baixo e levar o debate para uma toca de coelho de Alice no País das Maravilhas.

 

Trinta anos atrás, num curso de pós-graduação, eu costumava bocejar e revirar os olhos quando ouvia colegas pedantes soltarem as mais recentes platitudes teóricas: fatos não existem, a verdade é relativa, a realidade é composta de camadas manipuláveis de simulacros, vence quem tiver a narrativa mais forte. Agora, porém, tudo isso se tornou real.

 

Nada que algum dos candidatos diga pode convencer alguém de alguma coisa. Se X diz Y, o simples fato de que X o diga significa que ele está mentindo. Se X mente, e Z expõe as suas mentiras, é óbvio que X está dizendo a verdade já que Z o chamou de mentiroso. Todo o mundo ficou tão cansado, tão cínico, tão desgastado com o processo democrático de campanhas competitivas que ninguém acredita em alguma afirmação positiva da verdade. As únicas afirmações que têm algum valor são as feitas com energia negativa. Afirmações como "nós estamos no caminho certo", "estamos melhores do que estávamos", "as coisas estão melhorando" empalidecem em comparação com afirmações como "estamos marchando para o inferno", "perdemos o rumo", "estamos sendo traídos por nossos líderes". As pessoas desconfiam de qualquer coisa através da qual se possa ver. Não se pode ver através de uma negativa. Uma negativa tem a vantagem de parecer já ter visto através de tudo.

 

E assim Romney mentiu, e mentiu sem parar. Ele disse que Obama dobrou o déficit. Obama reduziu ligeiramente o déficit. Ele disse que Obama cortou US$ 716 bilhões do Medicare (sistema de assistência pública de saúde para idosos). Obama reduziu o custo de reembolsos do Medicare; ele não cortou nada. Romney disse que não estava propondo um corte de impostos de US$ 5 trilhões. Mas ele prometeu cortar em 20% a taxa de juros marginal, o que resultaria num corte de impostos de US$ 5 trilhões.

 

Espantosamente, Obama não expôs as mentiras de Romney em nenhum momento do debate. Ele não refutou com firmeza e indignação a acusação de cortar US$ 716 bilhões do Medicare. Não sustentou, em termos puros e simples, que na verdade ele reduziu o déficit. Em vez disso, enredou-se nos detalhes de várias políticas, o que simplesmente teve o efeito de dar a impressão de que ele estava mentindo. O momento pior e mais revelador de seu desempenho ocorreu quando houve um barulho forte nos bastidores. Romney olhou para o lado por alguns instantes. Obama olhou em volta, depois exibiu um enorme sorriso para a plateia, como se estivesse pronto para recomeçar a brincadeira. O resultado foi que a visão negativa de Romney, passada com vigor, ousadia, e agressividade durante toda a noite, avançou desimpedida como um buldôzer.

 

Eu apoiei Obama desde a sua primeira disputa da Presidência. Ataquei seus adversários, às vezes nos termos mais passionais. Escrevi com aguda indignação sobre o estarrecedor racismo branco que paralisou sua Presidência. Portanto, sinto-me no direito de falar francamente sobre o caráter desse homem.

 

Seus admiradores dizem que ele é calmo. Eu digo que sua calma é, na verdade, uma forma de paralisia emocional causada pelo sentimento de que ele não é aceito, ou amado. Seus admiradores dizem que, como um astro do basquete, ele se contém e espera até o último segundo do jogo para fazer um arremesso de longe e vencer. Eu digo que ele é incapaz de agir agressivamente porque, durante toda sua vida, ele esperou que a estrutura do poder branco arrumasse tudo para ele. Por que ele deveria se virar para Romney e questioná-lo, pessoal e vigorosamente, com as evidências de que Romney estava mentindo como um sociopata? Por que correr o risco de parecer um negro raivoso, quando a poderosa gente branca que o sustentou durante toda sua carreira arrumará tudo após o debate – neste caso, a mídia e as pessoas que orquestram sua campanha de propaganda?

 

Um famoso professor de filosofia de Princeton, que é negro e, ademais, um príncipe africano, disse-me certa noite numa festa onde estávamos conversando: "Temo que Obama seja uma espécie de negro profissional". Somente um negro poderia dizer isso em público; talvez somente um príncipe africano poderia dizê-lo em público. Mas eu temo que seja verdade. Se Obama perder esta eleição para uma fraude vazia, perversa e enganosa como Romney – a fruta podre da estrutura de poder branco –, ele não merecia tê-la vencido da primeira vez.

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