O que é vida?

A todos, no prédio, diz que se chama Marte. E papai? ‘Lua.’ E a mamãe? ‘É Estrela’

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2017 | 02h00

Meu filho anunciou do nada que mudou de nome. Deveríamos chamá-lo de Marte. “Martin?”, corrigi. “Nããão”, fez aquele ar impaciente, diante da descoberta de que há muitos ruídos na comunicação entre crianças e adultos e que, geralmente, é o adulto quem tem problemas de compreensão, não a criança, de expressão. “Marte, como o planeta vermelho.” 

Obedeço. Passei a chamá-lo de Marte. Sabe ele que sou obcecado por Marte, o planeta, leio tudo o que sai a respeito das futuras possíveis viagens? Quero muito estar vivo quando o primeiro homem ou mulher (aposto que será uma mulher, para respeitar a cota dos primeiros passos) colocar os pés no planeta deserto e anunciar o grande salto para a humanidade.

Não sou o único pai que tem um filho chamado Marte, o deus romano da guerra, que amou Vênus, com quem teve um filho, Cupido. Juno, ou Júpiter, também tem um filho chamado Marte. O deus do impulso é o pai de Marte, avô de Cupido.

A todos, no prédio, diz que se chama Marte. Decidi pôr os astros no lugar. Se ele, que tem 3 anos e meio, é Marte, quem é Tião, seu irmão de 1 ano? Respondeu numa rapidez que, concluí, era algo pensado, elaborado e decidido: “Tião é a Terra”. E papai? “A Lua.” “Mamãe então é o Sol?”, perguntei, já que duvidei que ele soubesse os nomes dos planetas rebaixados que giram em torno do Sol. “Não, mamãe é Estrela.”

Então, percebi que a mudança de nome não veio do nada. Especulando interpretações como um diletante, Marte se sente de fora, vermelho, longe, inóspito, deserto, abandonado, solitário. Especialmente depois da chegada da Terra, Tião, hoje, com seu sorriso cativante, a maior atração do prédio, da família, e que requer atenção redobrada da Estrela, a mãe que os alimenta, dá luz, que os deu à luz, e não tem mais tanto tempo para Marte, antes exclusivo. 

Eu, a Lua, apenas observo tudo de cima. Por vezes, me ausento (viagens, palestras, congressos, trabalho fora). Por vezes, ocupado, estou à meia-luz, escrevendo, em outra galáxia. Por vezes, brilho no céu (eu o colocava para dormir nos primeiros anos; noite deve estar associada a mim).

*

A primeira palavra que ele começou a falar foi “tatai”. Durante meses, não falava mamãe, papai, “comê”, “quelô”, apenas tatai, o que intrigava toda a família, que perguntava a ele o que era tatai; ele não tinha vocabulário para explicar a primeira palavra aprendida. 

Com o passar dos meses, e o vocabulário se expandindo, descobrimos que tatai é tudo que gira: roda, ventiladores, motores, turbinas de avião. Numa sala de espera, num banco, numa farmácia, ele sempre descobria um tatai (ventilador) girando. Apontava e dizia: “Tatai!”.

O significado do tatai foi apurado. Pneu é pneu, não é tatai. Ao cruzar carros estacionados, ele costuma examinar se o pneu está sujo. E me pergunta sempre por que pneus são pretos. Roda continua tatai. Então, o que faz girar o pneu é tatai, e o intriga os pneus serem pretos e os tatais, as rodas, cinza, como ele define o prateado. Em um carro apenas, justamente o meu velho, de mais de 20 anos, o tatai é preto, como o pneu. Agora, ele só quer andar no carro que tem tatai preto e nunca tem carga na bateria, pois não sai da garagem. O meu velho.

Minha irmã psicóloga, que trafegou por Freud e Jung e que não deixa barato atos falhos, ou parapráxis, matou a charada. Para Freud, muito mais do que apenas uma troca de palavras por engano, o ato falho, ou Fehlleistung, é uma invasão inesperada do inconsciente, que revela numa blitzkrieg esmagadora segredos que a consciência, o ego, reprime.

Nomear ventiladores foi dos primeiros vocábulos, já que nasceu em janeiro, verão, e sobre ele sempre hélices giravam. Mas outra roda girando, que representava medo e alegria, foi dos primeiros sentimentos que lhe despertaram a atenção, no berço ou no chão, engatinhando: as de uma cadeira de rodas. Tatai seria uma corruptela de papai.

Faz sentido, já que a única palavra em meses que seu irmão, Tião, falou foi “bruum”. Muito depois veio mamãe. Bruum sou eu, com minha cadeira motorizada, andando pela casa com ele pendurado ou agarrado, como ando desde os primeiros meses com o inventor da palavra tatai.

*

Depois de uma viagem, e sempre trago presentes, cheguei em casa com um DVD de bichinhos; a capa é um sorridente jacaré. Olha, filho, papai te trouxe um DVD. “Oba, oba, oba!”, gritou para todos que ganhara um DVD. Só um tempo depois me perguntou o que é um DVD. E me fez prometer ensinar a usá-lo. Descobri que não uso discos há anos. Nem alcanço o aparelho.

O vocabulário começa a crescer depois dos 2 anos. Todo dia, é uma surpresa. Me achava um pai mole demais. Como meu pai, aliás, que em toda vida me deu duas broncas, me colocou uma vez apenas de castigo. Decidi, como ele me fez um dia, na nossa casa do Leblon, mandar meu filho Marte pensar na vida sentadinho na sua cama. 

Fiquei à sua frente. Vai ficar aqui pensando na vida, até se acalmar. Seu choro virou berreiro. As lágrimas escorriam como torneiras abertas. Calma, é só pensar na vida. E ele, cada vez mais desesperado, aflito. Calma, filho, tudo bem? Desabafou: “Eu não consigo. Eu não sei o que é vida...”.

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