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David Cameron

O peso do voto

Mas o voto de protesto, como tantos estão descobrindo, tem um preço e quem paga é o eleitor

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Lúcia Guimarães

20 Março 2017 | 02h00

O que têm em comum o submarino britânico de pesquisa cujo nome é uma piada e o destino de cerca de 14 milhões de americanos que podem perder acesso ao seguro saúde no ano que vem? Ambos são consequências do populismo.

O submarino polar Boaty McBoatface partiu na viagem inaugural rumo à Antártica com a responsabilidade de um projeto científico de 200 milhões de euros e um nome que começou como gozação no voto online e se tornou viral. Mais ou menos como a bravata do ex-primeiro-ministro David Cameron, que rifou a integração do Reino Unido na União Europeia em troca da própria reeleição, oferecendo o referendo do Brexit como adoçante, certo de que não ia passar.

O voto popular presenteou os britânicos com um submarino cuja séria missão de pesquisar a mudança de clima será sempre associada a um nome ridículo e, mais grave, claro, um Brexit fadado a punir mais os que votaram pelo abandono da União Europeia. Voto bem informado tem o mesmo peso do voto de protesto.

Esta realidade foi dolorosamente exibida num especial recente da TV americana. O senador Bernie Sanders, derrotado por Hillary Clinton nas primárias, foi ao coração da Trumplândia. Sanders fez um encontro no estilo town hall no município de MacDowell, do sofrido estado de West Virgínia, com alto índice de pobreza e desemprego. MacDowell tem o maior índice de mortes por overdose de opioides do país. O abuso da nova geração de drogas para a dor e da heroína está destroçando comunidades americanas e matando mais de 27 mil pessoas por ano. É a aids desta geração, na opinião de um comentarista político que é soropositivo há mais de 20 anos.

O diálogo com Bernie Sanders foi mediado por um jornalista da TV a cabo que abriu a noite perguntando se estava no “país de Trump.” Alguns na plateia murmuraram “infelizmente.” As minas de carvão proporcionaram a MacDowell seu apogeu, alimentaram a indústria do aço e o declínio do carvão devastou a economia local. O presidente prometeu reabilitar o carvão como fonte de energia e 74% dos moradores do município votaram nele. Mas o voluntarismo econômico, partindo de Brasília ou de Washington, costuma gerar vítimas entre os que se apegam a promessas populistas.

Bernie Sanders sabe conversar com eleitores como os que encontrou naquele town hall, fazendo perguntas e expondo, sem humilhar, à medida que ouve histórias, a contradição do voto como tiro no próprio pé. Os testemunhos eram de partir o coração e fizeram contraponto assustador com os detalhes da proposta do orçamento federal divulgadas na quinta-feira. Todas as aflições daqueles eleitores, sobre acesso a assistência médica, tratamento antidrogas, educação e empregos serão potencialmente agravadas pelo orçamento republicano.

O resultado da eleição presidencial decidida por demagogia e promessas já descumpridas se reflete em pesquisas de opinião e foi detectado nos jornais regionais em estados que deram a vitória ao presidente. As manchetes do fim de semana destacavam perdas locais, seja por corte do acesso de centenas de milhares ao seguro saúde, corte de verbas para controle de poluição ou corte de assistência alimentar aos idosos. 

Uma nova forma de demagogia é dirigida igualmente por ideólogos de direita e esquerda contra tecnocratas, nos Estados Unidos personificados pela campanha de Hillary Clinton, superabastecida de especialistas. Mas, se a democracia do voto deve ser preservada a todo custo, é importante não jogar especialistas ao mar.

Americanos não movidos a ideologia, muitos deles ex-eleitores de Barack Obama, optaram pelo voto “contra tudo que está aí”, crentes de que, pior do que estava, não podia ficar. Mas o voto de protesto, como tantos estão descobrindo, tem um preço e quem paga é o eleitor, não o eleito.

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