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Ó pedaços de mim

Você se mete a desbravar suas raízes e acaba caindo num fascinante poço sem fundo

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Humberto Werneck

21 Março 2017 | 02h00

Onde mesmo estava eu quando, na semana passada, tive que cortar o papo sem que o assunto estivesse esgotado?

Ah, sim: estava no ponto em que o doutor, sumidade em genética, me pediu que abrisse a boca e esfregou um cotonete nas mucosas, colhendo assim material para o tal teste de ancestralidade genômica, realizado com o objetivo de investigar o que compõe a minha já meio sambada carcaça. 

O exame do que foi colhido no interior das bochechas, veja você, permitiu saber que 0,8% de minha pessoa já vivia no Brasil, que nem sequer tinha este nome, no momento em que o Cabral, tendo perdido o rumo das Índias, por acaso nos descobriu. Sim, ainda que pouco, tenho em mim um tanto de índio. Uma remotíssima avó, tendo à mostra as “vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras” que o Pero Vaz registraria em carta, pode ter mascado milho na taba para fermentar cauim, quem sabe degustado um mindinho do bispo Sardinha. 

Falo sério: um pouco de mim talvez já estivesse naquele ponto do litoral baiano, vendo chegarem umas caravelas, ou, dias mais tarde, no corpo desnudo e colorido de um dos adoradores de Tupã que, num inusitado programa de índio, se juntaram na praia, divertidos, intrigados ou embasbacados, jamais se saberá, e viram o frei Henrique de Coimbra rezar a histórica Primeira Missa, inspiração para a tela que em 1860 irá brotar dos pincéis do Victor Meireles. 

Na ponta do cotonete veio também a informação de que outro 0,8% de minha pessoa aqui desembarcou em algum momento dos séculos seguintes, não no convés de uma caravela, mas no apinhado porão de um navio negreiro proveniente da África, inspiração, este, não de um quadro a óleo, mas de um flamejante poema de Castro Alves. 

Quanto à fatia mais gorda do material genético que constitui este cronista, os restantes 98,4%, o laudo do teste de ancestralidade genômica informou tratar-se de herança europeia. E mais não disse. Para detalhar esse gordo porcentual, esclareceu o doutor, será preciso ir mais fundo na investigação. Fá-lo-ei, diria o Temer, oportunamente fá-lo-ei. 

Já posso afirmar, em todo caso, que trago em mim um tanto de português, Avellar e Azeredo Coutinho que sou pelo lado materno. No outro lado, sem fazer pouco de outros veios, lusitanos inclusive, o que mais me interessa é esmiuçar as origens da vovó Dora, mãe de meu pai, desbravando assim picadas judaicas que por ora mal conheço, mas das quais desde já me orgulho. 

Até bem pouco tempo atrás, este foi um enigma pendurado numa árvore genealógica que, de tão incompleta, dava a impressão de haver sido radicalmente podada numa banda só. O tio Jorge desenhou-a, numa vasta folha de papel, como um círculo no qual um dos hemisférios, relativo a seu pai, estende galhos e raízes quase a perder de vista. O hemisférico materno, porém, secava logo ali, sabendo-se apenas que a vovó Dora era neta de judeus-ingleses - o comerciante Frederick Manassah Brandon e sua mulher, Maria Miriam Russell, que em meados do século 19 vieram viver um tempo no Rio de Janeiro, onde, no retorno a Londres, deixariam duas filhas que aqui encontraram maridos. 

Uma das moças, a Evelyn Louisa, casou com um Fernandes Eiras, de origem portuguesa com certeza, não sem antes virar brasileira, converter-se à religião católica e passar a se chamar Evelina, numa alteração onomástica que aliás se dera também com sua mãe, que os nativos, vá saber por que, tratavam de Mariana. Uma bisavó inglesa talvez fosse uma solitária possibilidade de passaporte da Comunidade Europeia, upgrade que na verdade jamais cogitei, não tivesse a Grã-Bretanha vindo agora com essa história de Brexit.

Era tudo o que sabíamos a respeito desses ancestrais até que, em anos recentes, meu primo Ruy, herdeiro do tio Jorge também no que se refere à paixão da genealogia, destampou para nós um poço do qual, borbulhante, emergiu inumerável parentada, cujas raízes remetem ao fundo dos tempos, e que, ao longo de muitos séculos, empreendeu sinuosa caminhada - não raro tangida, imagino, por surtos de antissemitismo -, dos extremos da Europa Oriental à Londres do vovô Frederick e da vovó Maria/Mariana. Viajando de uma ponta a outra, talvez se possa afirmar que ali não deixou traços quem não fosse judeu a 100%. A olho nu, muito quipá e nenhum prepúcio. 

Não quero contar vantagem, mas fique sabendo que em minhas veias corre uma fração do sangue de Solomon ben Isaac, ou Shlomo Yitzhaki, mais conhecido como Rashi, que no século 11 ganhou fama como autor de um brilhante comentário sobre a Bíblia Hebraica e sobre o Talmud. Que eu descendo também de Matityahu V Treves, rabino-chefe em Paris no século 14. E que, 300 anos mais tarde, na Morávia, meu ancestral Zvi Hirsch ben Yaakov Ashkenazi sobressaiu a ponto de constar nos anais, não só familiares, como “uma das maiores autoridades em Lei Judaica e no Talmud” de seu tempo, tendo por isso recebido o título de Chacham - rabino - com apenas 18 anos.

Eu avisei que o poço não tem fim, e olha que ainda não submeti minhas mucosas bucais a uma raspada mais radical do cotonete genômico. Melhor ir parando por aqui.

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