O papelão dos bacharéis

Comédia em tom absurdo de Ana Roxo satiriza a mentalidade brasileira do jeitinho

O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2012 | 03h10

Cabeça de Papelão é uma louca comédia de humor absurdo com raízes na formação social brasileira e em certa psicologia de classe que vem dos tempos coloniais e se sedimentou na burocracia do Império e na República dos bacharéis. Já foi estudada academicamente (Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda, e Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro) e satirizada pelos melhores escritores de todos os tempos. Ana Roxo encontrou um caminho divertido e cortante de expor essa mentalidade parasitária. Um olhar cético sem cair na lamúria conservadora do "esse país não vai para frente". Deixa claro que colocou no mesmo caldeirão o gangsterismo das peças de Brecht e o que Brasília simboliza em termos de acertos duvidosos. É divertido porque ela refaz tudo isso de forma calculadamente exagerada a partir das crônicas e livros de João do Rio (1881-1921) sobre a sociedade carioca começo do século 20.

Por coincidência, ele e Lima Barreto, crítico mais sofrido e talvez por isso mais agressivo diante das mesmas mazelas, nasceram no mesmo ano de 1881. O "cabeça de papelão" do enredo é o cidadão Antenor, que demora em aprender os mecanismos de como se acertar na vida mediante negócios intramuros, casamento arranjado, o anel de doutor e um lugarzinho no serviço público, e assim por diante. Como ele é meio lento, trocam-lhe a cabeça por uma de papel e assim, em meio à bagunça do "País do sol" tudo se arranja com cordialidade e brandos costumes. Mas sempre algo pode sair ao contrário e o humor delirante mais um grão de loucura fazem sua parte na obra de Ana Roxo sob a direção de Kleber Montanheiro conduzindo um ótimo elenco. A comédia a serviço da inteligência numa indignação desaforada e risonha diante da instabilidade geral em solo pátrio desde que Macunaíma bradou "pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são".

Há um sutil tratamento psicológico dado ao entrecho. O plano existencial ganha relevância e alguma abstração está presente. Ana Roxo demonstra um à vontade diante de João do Rio que demonstra o reconhecimento ao original, mas se permite a trabalhar na contemporaneidade de sua visão de dramaturgia. O contrário seria algo arqueológico, como encenar Mistérios do Rio de Benjamin Costalatt (1897- 1961) no clima de uma sociedade que passou por enormes mudanças para o bem e para o mal. O personagem Antenor é mostrado em ritmo de riso solto, porém conservando um fundo de seriedade que é um dos suportes do Teatro de Absurdo (sobretudo em Ionesco e Vaclav Havel). Encenação ao usar habilmente o pouco espaço do Miniteatro leva o público a uma loja de antiguidades, café literário ou sótão de casa antiga onde tudo lembra miniatura.

O museu das ilusões do protagonista, o típico exemplar da mentalidade perplexa e mediana até se descobrir um joguete e reagir. Sua cabeça adquire o formato de TV ou Laptop (tentativa de associá-lo ao jovem agressivo do filme Laranja Mecânica; recurso engenhoso, mas não tão convincente). O espetáculo avisa que a mudanças começam sem manifestos exaltados e que a mediocridade cotidiana só será alterada "a partir do nosso pensamento, nossas crenças e nossa posição perante o pequeno mundo que nos cerca". Mas não é nenhum convite ao sofrimento, ao contrário. Ana Roxo, ao fazer a livre incursão ao original de João do Rio, busca a quase esquecida Revista Musical; e teve parceiros a altura. Só é pena o elenco aparecer no programa sem os respectivos papéis. Não se sabe quem é quem (como,ao contrário, se sabe da direção e que Montanheiro responde também pelos excelentes figurinos, cenário e iluminação) e a parte musical é de Adilson Rodrigues, Gabriel Hernandes e Nina Hotimsky. São todos bons embora se consiga registrar a bela e convincente presença de Heloisa Maria. O Miniteatro é um lugar simpático e um projeto artístico inteligente apesar do esquema de recepção com uma comanda de despesas (o térreo é um bar) com o alerta ameaçador de taxa elevada em caso de perda do cartão. Seria melhor outra solução, coerente com o bom humor que o palco irradia com bastante talento.

Crítica: Jefferson del Rios

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