O mestre e o exílio do pai da semana

Ainda que não possuam o viço da correspondência com Bandeira, ou mesmo com Drummond, as cartas que Mário de Andrade trocou com Sérgio Buarque de Holanda, entre 1922 e 1944, formam um conjunto precioso, que virá a público em 2012, em edição conjunta da Companhia das Letras e da Editora da Universidade de São Paulo, por meio do Instituto de Estudos Brasileiros.

Pedro Meira Monteiro, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

Devidamente anotadas e apresentadas, as cartas podem sugerir as linhas de força de um debate que ocupou intelectuais e artistas, desde os primeiros ventos do modernismo, com a revista Klaxon e a Semana de Arte Moderna, até bem entrado o Estado Novo.

Tempos tormentosos, quando muitos de nossos valores contemporâneos sobre o indivíduo, sua inviolabilidade e sacralidade, encontravam-se em suspenso, ameaçados e testados por todos os lados. A tensão entre o individual e o coletivo era de tal monta que hoje talvez nos seja impossível precisá-la, embora as cartas dos dois amigos nos permitam senti-la.

Lê-las é adivinhar a profundidade que se oculta em pequenas sentenças, como no caso da última linha dirigida por Mário a Sérgio, em dezembro de 1944, quando o poeta já havia retornado de seu "exílio" no Rio, e resumia um estado de alma que, de certa forma, o acompanharia até à morte: "Um bom ano de 1945 pra você, Maria Amélia, filhotes e esta nossa triste humanidade".

A correspondência ajudará a entender melhor o momento em que, decepcionado com os desdobramentos do modernismo, Sérgio Buarque manda ao diabo as convenções e as alianças, mas promete ao amigo um artigo sobre sua obra. Mário intuía que somente Sérgio seria capaz de escrever algo que "prestasse" sobre si. Há um quebra-cabeça complexo por trás dessa promessa nunca cumprida. Em carta de abril de 1928, Mário se abre, escrevendo a Sérgio que "a promessa do artigo é ouro para mim". Aí reponta a primeira peça: "Tenho esperança de alguma coisa que me interesse de verdade porque, repara, com exceção dumas poucas coisas, ditas pelo Tristão, ninguém até agora, não percebeu direito em mim coisa que me interessasse ?nem é artigo publiquento e publicável que espero. Basta carta, ali, uma carta que me falasse coisas mais subtis (ergo: mais profundas) sobre este vulcão de complicações que eu sou! Jamais não consegui saber o que eu sou. Mas ponha reparo nos que escrevem sobre mim: sou fácil como água para eles, questão fácil de resolver, dois mais dois. Tenho esperança em você que soube falar sobre Hardy e inda milhor de vez em quando inventa coisas."

Selecionando as peças sobre a mesa, uma montagem crítica permite supor que o obituário de Thomas Hardy, que Sérgio escrevera para o Diário Nacional naquele mesmo ano, conteria as chaves para a compreensão da obra de Mário. Segundo o jovem articulista, àquela altura com 26 anos de idade, o escritor inglês sempre carregara "qualquer coisa de desmedido", um "sentimento convulsivo dos temas essenciais de nossa existência". Debatendo-se entre os escombros da sociedade vitoriana, Hardy estaria entre aqueles que "se rebelam contra as forças ordenadoras que dirigiram sempre a sabedoria e a segurança dos homens na Terra e resistem energicamente a qualquer tentativa de expressão social". E remata: "Seria mesmo bastante estranho que se procurasse prolongar essa experiência individual em um sistema coerente de ideias".

Para bom leitor, poucas palavras bastam. Aí estão, quase literalmente, expressões de artigos anteriores de Sérgio, mas aí estão, também, as linhas mestras da crítica ao autoritarismo que floresceria, anos depois, em Raízes do Brasil. O conflito entre a "expressão" e a "ordenação" expõe, no centro do debate político, o indivíduo ameaçado por forças que o transcendem. Daí a importância, no ensaio clássico de Sérgio Buarque, da crítica à recuperação anacrônica da Escolástica pelo pensamento conservador, que nos anos 30 viria a alimentar um veio católico de direita.

O dado é relevante não apenas para a compreensão da obra de Sérgio Buarque. A imaginação de Mário de Andrade também se vê jogada entre os extremos da "ordem" final, que se busca e nunca atinge, e da "desordem", que aponta para o fulcro criador e irredutivelmente individual da arte. Muito antes que Mário sistematizasse a condição dilacerada do artista em O Banquete, ou antes que imaginasse o cantador do povo a sacrificar exemplarmente a própria individualidade, é Macunaíma, para todos os efeitos, o lugar onde se encontrarão respostas para muitas das questões que as cartas dissimulam em sua brevidade e aparente leveza.

A irresolução dilacerante de Macunaíma não é bem a oscilação entre o destino final da coletividade, que o herói recusa, e os desvios criativos do indivíduo que se refestela no prazer do instante? Não está aí, figurada e desenvolvida em estrutura contrapontística, a questão do inacabamento e da miséria deste mundo, habitado por aquela "pobre humanidade"? Mundo desesperadamente precário, sempre que o tomemos como a cópia imperfeita de um outro mundo.

Conjunto pequeno, as cartas dos dois autores não chegam a explicar suas obras. Mas elas nos obrigam a revisitá-las, permitindo elaborar novas questões sobre a tensão entre a ordem, de um lado, e a desordem, de outro. Tensão esta que, estando na base do pensamento de ambos, dá origem a uma ilustre linhagem do pensamento no Brasil, que seguirá encantado, século 20 adentro, com uma dialética muito nossa conhecida, familiar a todos aqueles que nos sentimos jogados entre a dor da ordenação e a delícia da desordem.

PEDRO MEIRA MONTEIRO É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA PRINCETON UNIVERSITY, AUTOR DE UM MORALISTA NOS TRÓPICOS (BOITEMPO EDITORIAL). ATUALMENTE PREPARA A EDIÇÃO DA CORRESPONDÊNCIA ENTRE MÁRIO DE ANDRADE E SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

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