O mestre e a musa

Liv & Ingmar - Uma História de Amor revela nuances da parceria entre o cineasta e sua atriz favorita

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2012 | 02h12

No livro O Cinema Segundo Bergman (Paz & Terra), o mestre sueco conta como conheceu Liv Ullmann. Bibi Andersson havia sido contratada para fazer um filme chamado Os Canibais (depois se tornaria A Hora do Lobo) e ele havia encontrado um grupo de atores noruegueses que visitava Estocolmo. Entre eles, uma moça bastante interessante. "Preciso escrever um papel para ela", disse para si mesmo. A moça era Liv. Ela se tornou amiga de Bibi Andersson, Bergman as observa e pensa: "Como são parecidas". Nascia a ideia de Persona (1966) que, entre outras qualidades, tem a de ser a primeira colaboração artística entre Liv Ullmann e Ingmar Bergman. Essa trajetória em comum - na vida como na arte - é o tema do belo documentário Liv & Ingmar - Uma História de Amor, de Dheeraj Akolkar.

O filme é um longo depoimento da agora madura Liv Ullmann, falando do seu companheiro de vida e filmes. Mantiveram um casamento tumultuado, como seria de se esperar dada a época em que conviveram e seus respectivos temperamentos. Tiveram uma filha, Linn, e trabalharam juntos em nada menos que dez longas-metragens.

Não são filmes comuns. Podem ser qualificados, com uma exceção, em escala que vai do excelente à obra-prima, sem qualquer extravagância valorativa por parte do crítico. Na dúvida, basta lembrar os títulos: Persona (1966), Vergonha (1968), A Hora do Lobo (1968), A Paixão de Ana (1969), Gritos e Sussurros (1972), Cenas de Um Casamento (1973), Face a Face (1976), O Ovo da Serpente (1977), Sonata de Outono (1978) e Saraband (2003). A exceção é O Ovo da Serpente, tido como um Bergman menor, embora pelos padrões de hoje possa ser considerado até brilhante.

O fato é que Bergman encontrou em Liv seu instrumento precioso. O belo rosto da norueguesa expressa, como nenhum outro, o conflito interno de que se compõe o imaginário do diretor. Suas personagens são dilaceradas como a Elizabet Vogler, de Persona, ou Alma Borg, de A Hora do Lobo. Podem ser oprimidas como a Marianne de Cenas de Um Casamento, ou Eva, de Sonata de Outono. Mas nunca são passivas. Guardam força interna, angustiada, que a câmera capta.

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