O legado de Zurlini, cineasta da emoção, em caixa de DVDs

Coleção reúne os oito longas de ficção dirigidos pelo italiano entre 1955 e 1976

Agencia Estado

07 Junho 2012 | 03h37

Cultuado por cinéfilos, o diretor italiano Valério Zurlini (1926 -1982) nunca chegou a ter sua obra exibida como merecia. Alguns de seus filmes só foram vistos na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e, a despeito de ter assinado títulos à altura dos melhores dirigidos por Antonioni, Rossellini e Visconti, não é um nome lembrado com a mesma freqüência. Finalmente, o DVD vem corrigir essa injustiça. A Versátil Home Vídeo lança até 2008 os oito longas de ficção dirigidos por Zurlini, começando por A Moça com a Valise (La Ragazza con La Valigia, 1961), já à venda nas lojas. O segundo, Verão Violento (Estate Violenta, 1959), chega esta semana ao mercado, seguido em julho pelo poético A Primeira Noite de Tranqüilidade (La Prima Notte de Quiete, 1972). Programados para o próximo ano estão Quando o Amor É Mentira (Le Ragazze di San Frediano, 1955), Dois Destinos (Cronaca Familiare, 1962), Mulheres no Front (Le Soldatesse, 1965), Sentado à Sua Direita (Sedutto alla Sua Destra, 1968) e O Deserto dos Tártaros (Il Deserto dei Tartari, 1976). Representante da primeira geração que herdou dos neo-realistas o amor pela literatura humanista (Cesare Pavese, Vasco Pratolini), Zurlini foi também marcado pela filosofia existencialista e a consciência crítica da miséria de um mundo recém-saído da 2.ª Guerra Mundial. Seja pela denúncia da exploração militar dos corpos das prostitutas em Mulheres no Front ou por sua repulsa ao abismo social (que separa os amantes em A Moça com a Valise), Zurlini deixou sua marca no cinema como um autor comprometido fundamentalmente com a justiça. Força de hábito. Antes de virar cineasta, formou-se em Direito, em Bolonha. O diretor também estudou História da Arte - e isso fica evidente em filmes como A Primeira Noite de Tranqüilidade, em que o protagonista, um professor (Alain Delon), explica à aluna Vanina (a bela Sonia Petrova) o significado da luz (intelectual) que emana da (camponesa) Madona del Parto, pintada por Piero della Francesca em Monterchi. Cineasta sensível, requintado e culto, Zurlini tem muito a ensinar aos jovens diretores seduzidos pela onda violenta e antiintelectual que domina a cena contemporânea. Suas adaptações de monumentos literários - de Vasco Pratolini (Dois Destinos) a Dino Buzatti (O Deserto dos Tártaros) - são provas vigorosas da fidelidade devotada à linguagem literária. Divisão Em A Primeira Noite de Tranqüilidade, desde o nome da protagonista feminina, Vanina (referência à personagem de Stendhal), Zurlini homenageia e reúne fragmentos de seus autores favoritos, em especial a refinada poesia romântica de Alessandro Manzoni (1785-1873), um autor avesso à renúncia do controle intelectual das emoções. Zurlini seguiu suas pegadas. Em Dois Destinos, Enrico (Marcello Mastroianni), irmão mais velho de Lorenzo (Jacques Perrin), é o contraponto intelectual do caçula, despreparado para a vida e sentimentalmente infantil. Como Manzoni, Zurlini também foi um homem dividido entre o agnosticismo e o cristianismo (destino que, de resto, parece ser o dos cineastas italianos). Sobretudo a resistência ao controle feudal da classe dominante italiana marcou seus filmes. Em quase todos contrapõe a vacuidade do mundo burguês à riqueza intelectual dos deslocados sociais. Em Dois Destinos, Mastroianni é um jornalista criado pela avó pobre e separado do irmão na infância. O caçula, educado por uma família rica, é quase um pária que, ao se ver subitamente desamparado, recorre ao mais velho para sobreviver. Em A Primeira Noite de Tranqüilidade, o professor (Delon), descendente de uma rica família cujo patriarca foi herói de guerra, renega sua origem ao ser entrevistado pelo diretor da escola (Salvo Randone), preferindo viver como outsider. Em A Moça com a Valise, é intransponível a barreira social que separa a pobre Aída (Claudia Cardinale) do rico garoto Lorenzo (Jacques Perrin) e seu irmão Marcelo (Corrado Pani). Apesar disso, Zurlini não foi um cineasta político como Pontecorvo ou Elio Petri. Sua única incursão no cinema engajado foi a disfarçada biografia do líder africano Patrice Lumumba em Sentado à Sua Direita (exibido nos EUA como Jesus Negro). Nele, Lalubi (Woddy Strode), líder rebelde do Congo, é preso ao lado de um ladrão italiano e um soldado (qualquer semelhança com a vida de Cristo não é mera coincidência). Ao contrário de Pontecorvo, Zurlini aposta na intersecção do público com o privado. Faz desse drama meditativo um manifesto que comove o espectador, associando o martírio de Cristo ao do líder Lalubi. Lega seu testamento político-religioso ao condenar o colonialismo e eleger um líder (Lumumba) que convocou seu povo a combater pacificamente um regime ditatorial imposto pelos europeus. Isso oito anos antes de O Deserto dos Tártaros, seu derradeiro filme. ´Deserto bíblico´ Em O Deserto dos Tártaros, o que poderia ser uma alegoria do espírito bélico dominante no mundo vira uma parábola sobre a prisão espiritual em que vivem os militares, confinados num forte à espera do inimigo. Zurlini é fundamentalmente um diretor que se ocupa de relações interpessoais, das sombras projetadas no deserto como emanações de um interlocutor ausente, debilitando os homens que nele se perdem. Os homens, em seus filmes, são invariavelmente seres condenados a vagar nesse deserto quase bíblico. O protagonista de A Primeira Noite de Tranqüilidade é um existencialista que cita passagens dos Evangelhos como um jansenista seguro de sua catastrófica predestinação ao vazio, um homem à deriva como os velejadores alemães que vão dar no porto de Rimini no prólogo do filme, tão forasteiros nesse mundo como o professor Dominici interpretado por Delon. Não há reconciliação possível desse estrangeiro com o mundo que o cerca, mesmo que se considere a passividade com que o professor aceita seu destino. A essa abnegação quase jansenista corresponde uma iconografia quase calvinista, que rejeita o policromatismo e abraça o vazio das praças pintadas pelos metafísicos italianos (dos quais Zurlini foi amigo e colecionador). No filme, a paisagem desolada do porto de Rimini no inverno anuncia, no prelúdio, a coda trágica de A Primeira Noite de Tranqüilidade, o destino de um homem fadado a confrontar o destino e ser por ele derrotado. Um homem perdido que idealiza uma mulher sem qualidades. Não é incomum na vida real, como comprovou o próprio Zurlini. Tampouco no cinema.

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